JB Neto/ AE
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Ao som do rádio, corpo do jornalista Reali Júnior é cremado em SP

Reali foi correspondente em Paris durante quase 38 anos. Colaborou para o 'Estado'

José Maria Mayrink - O Estado de S. Paulo,

09 de abril de 2011 | 11h25

Ao som de uma antiga transmissão sua, diretamente das margens do Sena,  na Masion de la Radio, o corpo do jornalista Reali Júnior foi cremado neste domingo, às 16h30, no cemiterio da Vila Alpina, em São Paulo. Colegas, jornalistas, empresários e políticos compareceram ao velório e à cremação.        

 

Aos 71 anos, o jornalista Elpídio Reali Júnior morreu de enfarte neste sábado, às 8h, em sua casa em São Paulo. Correspondente em Paris durante quase 38 anos, Reali Júnior começou a trabalhar como repórter da Rádio Jovem Pan aos 16 anos de idade. O adolescente que entrava no gramado para entrevistar os jogadores de futebol com um enorme gravador nas mãos ganhou o apelido de Repórter Canarinho que logo lhe deu projeção Brasil afora.     Nascido em 1939 em Bauru, onde passou os primeiros anos da infância, sempre manteve elos com a cidade natal. Foi ali que conheceu Pelé, o menino Édson Arantes do Nascimento que se destacava no Baquinho, time infantil do Bauru Atlético Cube. Reali era filho de pai de raízes italianas e de mãe descendente de baianos, família de costumes rurais na fazenda Tibiriçá, sustento da família.

 

Depois de fazer o primeiro ano do curso primário em Santos, onde seu pai, Elpídio Reali, delegado de polícia e mais tarde secretário estadual de Segurança trabalhou, Reali mudou-se para São Paulo, na Vila Nova Conceição, então um bairro de chácaras de legumes e flores. "Minha turma era da pá virada", contou o jornalista em depoimento a Gianni Carta em gravação para o livro Às Margens do Sena (Ediouro, 2007), lembrando a disputa da criançada na caça aos balões que caíam num eucaliptal da Avenida Indianópolis. Era o goleiro do time de futebol de rua - "não era um craque, mas era o dono da bola".

 

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Reali tinha 14 anos e Amélia tinha 13, quando começaram a namorar. Estudavam em Higienópolis - ele no Colégio Rio Branco e ela no Sion - saíam para um cineminha e comer um macarrão no centro da cidade, naturalmente escondido dos pais. "O primeiro beijo foi na bochecha", recordou Reali, mais de 50 anos depois. "Até hoje estamos namorando", acrescentou. Ao conseguir o emprego na Jovem Pan, então Rádio Pan-Americana, já estava pensando em se casar. Casaram-se em janeiro de 1961 e já tinham suas quatro filhas - Luciana, Adriana, Cristiana e Mariana - quando se mudaram para a França.

 

Reali era repórter de rádio, mas trabalhou também em jornais e participou de programas de televisão. Seu primeiro jornal foi o carioca Correio da Manhã, sucursal de São Paulo. Depois foi para a sucursal de O Globo e escreveu para os Diários Associados, sem nunca abandonar a Jovem Pan. Na madrugada de 1.º de abril de 1964, no golpe militar, estava ao lado do governador Ademar de Barros no Palácio dos Campos Elísios - um dos poucos repórteres que conseguiram entrar. Nos anos seguintes acompanhou todos os principais fatos políticos do País, ao mesmo tempo que cobria outros assuntos.

 

"Sempre escrevi sobre qualquer assunto, minha formação de jornalista autodidata, construída pedrinha sobre pedrinha, me dá essa possibilidade", gravou no depoimento a Gianni Carta. Suspeito de ser comunista, o que sempre negou, ficou na mira da repressão e por isso achou melhor ir para o exterior. Viajou para Paris em setembro de 1972, dois meses antes de Amélia chegar com as meninas. No ano seguinte, foi contratado pelo Estado de S. Paulo, por indicação de Ludembergue Góes e Raul Bastos, editores do jornal de passagem pela França, pouco depois da queda de um Boeing da Varig nas imediações do aeroporto de Orly.

 

 

Reali deu à cobertura do acidente, no qual morreram o senador Filinto Müller e o cantor Agostinho dos Santos, um enfoque bem brasileiro. Atribuiu a um cigarro aceso jogado no vaso sanitário do avião a fumaça que asfixiou os passageiros, descartando assim a versão do diário Clarín, de Buenos Aires, que apostou na hipótese de atentado terrorista. Sua situação ficou comprometida nos Diários Associados, que embarcaram na reportagem do jornal argentino. Sua versão estava correta.

 

Descrever e analisar os acontecimentos da França e de outros países por onde andou com os olhos de um repórter brasileiro sempre foi uma preocupação de Reali. Em Paris, ele cobria mais os fatos do dia a dia, ou fazia artigos especiais sobre eles, enquanto outro correspondente do Estado, o intelectual e escritor premiado Gilles Lapouge, escrevia análises. Os dois sempre se entenderam muito bem. Telefonavam-se todos os dias para comentar o que estava acontecendo e combinar o que escrever.

 

Como correspondente 24 horas à disposição da Rádio Jovem Pan e do Estado, era Reali quem mais viajava, tanto pelo interior da França como para outros países. Numa época de telecomunicações ainda precárias, transmitia o material por cabines públicas de telefone e brigava com os colegas por um terminal de telex. Não havia internet, as ligações telefônicas com o Brasil dependiam de tempo e sorte. Como também não existiam cartões de crédito, o repórter era obrigado a carregar dólares no bolso.

 

Na cobertura da guerra Irã - Iraque (1980-1990), o dinheiro acabou quando ele se encontrava em Amã, na Jordânia, depois de ter sido expulso de Bagdá. Sem condições de receber uma remessa de São Paulo, o jeito foi Amélia pegar um avião para Atenas, onde se encontrou com o marido. Passaram o fim de semana numa praia e, na segunda-feira, Amélia voltou para Paris e Reali retornou à Jordânia, com os dólares no bolso.

 

Outras coberturas marcantes foram a da Revolução dos Cravos em 1974, em Portugal, a queda do franquismo na Espanha em 1975 e a ascensão de Lech Walesa, na Polônia, em 1980. Reali e seu amigo William Waack, então correspondente do Jornal do Brasil, atualmente âncora da Rede Globo, viajaram várias vezes a Gdansk e Varsóvia, numa delas para cobrir a primeira viagem de João Paulo II, o polonês Karol Wojtyla, a seu país natal. Às vésperas da revolução iraniana, fez uma entrevista exclusiva com o aiatolá Khomeini, exilado em Paris.

 

O apartamento de Reali, às margens do Sena e a poucos quarteirões da Torre Eiffel, tornou-se um ponto de encontro para os brasileiros. Além de amigos e de jornalistas, sempre baixaram ali exilados, artistas e políticos de várias tendências. O economista Celso Furtado, os ex-presidentes Jânio Quadros, João Goulart, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, o ex-governador pernambucano Miguel Arraes, os ex-governadores paulistas Lucas Nogueira Garcez e Abreu Sodré, o cineasta Glauber Rocha, a cantora Elis Regina e, algumas vezes, Lula foram alguns de seus hóspedes ou comensais ilustres. Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, era uma boa fonte e grande amigo no exílio.

 

Um dos maiores amigos de Reali foi o escritor Luiz Fernando Veríssimo. Além de se encontrarem com frequência em Paris, viajaram juntos - os dois casais de carro - pelo interior da França e da Itália. Apreciadores de pratos e de vinhos refinados,, armavam um roteiro de bons restaurantes para, comendo e bebendo bem, recordar coisas da política e da vida no Brasil. O jornalista Saul Galvão, falecido em 2010, outro especialista na área, sobre a qual escrevia para o Estado, compartilhava o bom gosto à mesa de Reali e Amélia.

 

O prestígio do Estado e a popularidade na Jovem Pan facilitaram o acesso de Reali às autoridades francesas e a personalidades estrangeiras que visitavam Paris. O correspondente fez entrevistas exclusivas com os presidentes Giscard d'Estaing, François Miterrand e Jacques Chirac, para falar principalmente das relações bilaterais entre França e Brasil. Esse era também o interesse dos candidatos ou presidentes brasileiros que, como Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva viajaram à Europa. Reali entrevistava todos, ou tentava entrevistar, porque o humor dos políticos variava, à medida que assumiam poder. Acessíveis enquanto candidatos, driblavam os jornalistas depois de eleitos.

 

O ex-ministro Delfim Netto, que foi embaixador em Paris, era uma fonte bem cultivada. Reali não selecionava pessoas nem discriminava ninguém por suas posições ideológicas. Foi muito amigo, por exemplo, do jornalista e empresário Alexandre Von Baugarten, que conhecia desde menino e que foi seu colega na Escola Superior de Propaganda e Marketing, em São Paulo. Aliado do regime militar e ligado a agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI), Baugarten foi assassinado em 1982, supostamente para queima de arquivo. Reali reuniu, num mesmo café da manhã, o amigo e o exilado Giocondo Dias, secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB).

 

Mesmo escrevendo do outro lado do Atlântico, Reali foi vítima da censura que o Estado sofreu a partir da edição do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em dezembro de 1968. A tesoura dos censores cortou as reportagens que fez sobre a meningite, em 1974, quando ele entrevistou os donos do laboratório Mérieux e revelou que a produção de vacinas não conseguia atender a demanda brasileira. O governo do general Ernesto Geisel escondia a dimensão da doença e Reali mostrou que se tratava de uma epidemia nacional.

 

Enviado para a participar da cobertura da Rio 92, reunião de cúpula mundial sobre o meio ambiente, Reali teve um enfarte e foi parar no hospital no Rio de Janeiro, de onde viajou em seguida para São Paulo e recebeu três pontes de safena. "Esse foi o preço da boa comida parisiense", brincou Julio Mesquita Neto, diretor do Estado no telegrama que lhe enviou, antes de visitá-lo no Instituto do Coração (Incor).

 

Reali sempre mereceu o respeito da direção do jornal e da Rádio Jovem Pan. "Conheci os 'meninos' nos tempos de futebol em que eu era repórter de campo no Pacaembu, e também quase um menino", disse o jornalista no livro Às Margens do Sena, referindo-se à geração dos Mesquita seus contemporâneos. Citou nominalmente Ruyzito, Rodrigo e Fernão (filhos de Ruy Mesquita), Marina (filha de Julio Neto) e Patrícia (filha de Luiz Carlos Mesquita). "Quando viajo ao Brasil, sempre os encontro", revelou. Na rádio, foi muito amigo dos Fernando Vieira de Melo, o pai e o filho.

 

Já aposentado do Estado, do qual continuava sendo colaborador, mas ainda atuando na Jovem Pan, Reali viajou em férias par São Paulo em fevereiro de 2009. Deveria ficar dois meses, mas não pôde viajar. Doente e muito fragilizado, submeteu-se a um transplante de fígado em São José dos Campos. A cirurgia correu bem, mas sofreu outros problemas de saúde. Passou dois anos entre seu apartamento na Alameda Rocha de Azevedo e o Hospital Oswaldo Cruz. Mesmo quando de cama, continuava atento às notícias e pensando em arrumar as malas para reassumir seu posto em Paris.

 

Enquanto Amélia se desdobrava para dar assistência dia e noite ao marido, com a ajuda de Adriana, que mora em São Paulo, as outras três filhas, Luciana, Cristiana e Mariana, residentes da França, se revezavam para passar alguns dias com o pai. Reali tinha muito orgulho das meninas. "São todas muito bonitas, mas a mais bonita é a Amelinha ", disse o jornalista numa entrevista. Cristiana, atriz de teatro e cinema de projeção internacional, ganhou um capítulo especial (Nasce uma estrela) no livro-depoimento do pai. Em casa, as quatro filhas e os cinco netos tinham o mesmo carinho.

 

*Atualizada às 17h07 de domingo

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