Ao lado de Maia, Serra faz campanha no Rio

Em meio a uma recepção de candidato na periferia do Rio, com bateria da escola de samba Mocidade Independente, muitas crianças pedindo beijos e dois discursos em uma hora, José Serra esteve, nesta sexta-feira, no estado pela última vez como ministro da saúde e acabou falando de política. O candidato tucano à presidência disse que o Brasil sofre o risco de um ?populismo esquerdista?. Fez uma referência à Argentina, dizendo que o País naufragou, não por causa do populismo, mas por inépcia. Mais tarde, repetiu: ?O Brasil tem por diante muito boas chances, pode ter uma nova década espetacular. Agora, isso também pode ser perdido. O risco no Brasil não é apenas o populismo esquerdista, mas a inépcia, a incompetência.? O ministro não citou partidos ou candidatos. ?Não estou analisando pessoas, estou falando em tese. A população vai avaliar os candidatos?, disse, ao deixar a escola municipal Édison Carneiro, em Senador Camará, na zona oeste, onde entregou o primeiro cartão do programa bolsa-alimentação para mulheres grávidas e que têm filhos de até seis anos. Serra esteve sempre acompanhado de César Maia (PFL), e tratou de encerrar a polêmica em torno das declarações pelo prefeito do Rio de que o tucano vai desistir da candidatura, por ser ?inviável?. ?A César o que é de César, a Serra o que é de Serra. A César, o direito de falar o que achar e a Serra o direito de comentar o que ele quiser?, afirmou o ministro, que disse acreditar na aliança com o PFL e o PMDB, ainda no primeiro turno.Maia, enquanto esperava a chegada de Serra, reafirmou a tese de que a candidatura tucana não vai emplacar e que a pefelista Roseana Sarney deverá agrupar a base do governo ainda no primeiro turno. O prefeito disse não entender a irritação dos tucanos com suas declarações. ?Eles vivem dizendo que a Roseana vai desistir e eu não fico nervoso.?Antes da escola municipal, o ministro foi ao centro esportivo Miécimo da Silva, em Santa Cruz, onde foi recebido por mulheres uniformizadas que participam de programas para a terceira idade, líderes comunitários, vereadores e deputados. O clima era de inauguração, mas Serra estava assinando um protocolo de intenção em que transferiu R$ 22 milhões para a construção de três maternidades na região, que ficarãoprontas em um ano e meio.Nos dois compromissos, o ambiente era de campanha eleitoral e só não havia distribuição de panfletos porque estão proibidos pela lei eleitoral. Convocadas por telegramas da Secretaria Municipal de Saúde enviados quinta-feira, as 81 mães que receberam os primeiros cartões do bolsa-alimentação ganharam lanche com biscoitos, sanduíche e sucos e quatro vales-transporte ao chegarem à escola municipal. O próprio telegrama já anunciava: ?Haverá lanche e vale-transporte?. ?Valeu a pena dormir duas noites na fila para conseguir me inscrever, em janeiro?, agradeceu ao ministro a diarista Rosemary Marcelino, de 34 anos, que, na primeira fila dos convidados, amamentava a filha caçula, Milena, de um ano e três meses. ?Perdi uma faxina para receber o cartão. Em época de eleição, eles vêm aqui, dão beijo, é uma beleza.Depois some todo mundo?, lamentou Rosemary, que disse querer mesmo um emprego para o marido desempregado.Bem-humorado durante as quatro horas que passou na zona oeste, o ministro elogiou o deputado do PT Eduardo Jorge, secretário municipal de Saúde de São Paulo. ?Se todos os petistas fossem como ele, o Brasil seria diferente?. Também divertiu-se ao perceber que tinha um rasgo no bolso de trás da calça, registrado por cinegrafistas e fotógrafos. ?Quer dizer que a primeira página dos jornais amanhã seráminha calça furada??Serra elogiou César Maia por ser ?um dos poucos administradores do Brasil que dá crédito ao que o governo federal faz?. O ministro disse que muitos ?são especialistas em piratear as iniciativas?, anunciando como municipais ou estaduais as ações federais. ?O grande mérito do nosso presidente é que, apesar de não conseguir faturar politicamente todas as suas iniciativas, ter continuado?, discursou. No primeiro discurso, Serra disse acreditar que a taxa oficial da mortalidade infantil de 2001, a ser divulgada em março, ficará em 30 mortes por mil nascidos vivos. A taxa mais recente do IBGE, referente a 1999, era de 34,6/1.000. Já o Ministério da Saúde trabalha com uma taxa atual de32/1.000.O candidato tucano afirmou que a política requer ?um estrabismo saudável? e explicou: ?. Temos que estar de olho não apenas na política eleitoral de hoje, mas também no futuro da nossa população. É preciso ter um olho agora e outro mais adiante. Quem tem os dois olhos agoracompromete o nosso futuro, da mesma maneira que quem só olha para adiante não entende o que está acontecendo hoje?, disse o ministro que afirmou não pertencer apenas ao PSDB, mas também ao ?Partido da Saúde?.Em total clima eleitoral, os políticos estava inspirados, nesta sexta-feira. Em 20 minutos de discurso, César Maia conseguiu tecer elogios a três adversários políticos: o presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano, e o presidentenacional do PDT, Leonel Brizola. Maia vai batizar o mais importante hospital a ser construído com o dinheiro liberado por Serra de Neuza Goulart Brizola, mulher do líder pedetista, já falecida. Maia cantou trechos de duas músicas de Dolores Duran, que dá nome a outra maternidade, pedindo ajuda à platéia para entor A noite do meu bem e Catigo. Serra, por sua vez, lembrou Orlando Silva e o sucesso Errei, Erramos. Citou até alguns versos da canção: ?Eu na verdade, indiretamente, sou culpado da sua infelicidade.? O terceiro nome de maternidade escolhido por Maia foi Elisa Alicia Lynch, em homenagem à mulher do ditador paraguaio Solano López.

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