Capítulo 16

Ao escolher Ustra, Bolsonaro esquece Mallet, Osorio e Caxias

Em vez de pacificar o País, como quer a cúpula militar, amplia-se o antagonismo social

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2019 | 08h58

Caro leitor,

“A guerra é o inferno.” São conhecidas as palavras do general americano William Tecumseh Sherman, que invadiu a Georgia, incendiou Atlanta e cortou o sul confederado. A ideia de que a guerra é terrível e não se pode refiná-la faz parte da tradição militar. Mas quem a combate não deve acrescentar aos horrores da destruição e morte a indignidade do crime nem a degradação das virtudes das instituições armadas, baseadas em valores como honra e disciplina.

Ao elogiar a conduta do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra no comando do Destacamento de Operações de Informações (DOI), do 2º Exército, e qualificá-lo como herói, o presidente Jair Bolsonaro pôs um conceito tático – a vitória – no lugar dos princípios e normas do Estatuto dos Militares. Comandante Supremo das Forças Armadas, ele desconhece a história de seu Exército? Oficial de Artilharia, ignora o exemplo do patrono de sua Arma, o marechal Emílio Luis Mallet, durante a luta no Paraguai?

A guerra estava no fim. As tropas aliadas marchavam sem encontrar resistência, rumo a Peribebuí, onde 2.422 metros de trincheiras inimigas abrigavam um exército derrotado, formado por 1.800 infantes, além de crianças e idosos. Ao amanhecer de 12 de agosto de 1869, os 21 mil soldados comandados pelo conde d’Eu iniciaram o ataque. Primeiro, a artilharia brasileira martelou o adversário. Setecentos paraguaios morreram na batalha e 1.100 foram feitos prisioneiros. Do lado brasileiro, jaziam 312 homens.

Terminado o combate, começou o crime. Conta o visconde de Taunay que, por ordem do conde d’Eu, foram degolados os comandantes inimigos. O banho de sangue só parou depois que Mallet interveio. Em Peribebuí também estava o general Osório. Três anos antes, o patrono da Cavalaria fora o primeiro brasileiro a atravessar o Rio Paraná e a pisar no Paraguai. Naquele 16 de abril de 1866, Osório escreveu aos soldados: “Não tenho necessidade de recordar-vos que o inimigo vencido e o paraguaio desarmado ou pacífico devem ser sagrados para um exército composto de homens de honra e de coração”.

Mais de um século depois, em 19 de maio de 1977, um dos doutores que frequentavam as sessões de tortura do DOI, o capitão Freddie Perdigão, escreveu que o destacamento prendera 2.541 pessoas, das quais 51 estavam mortas, entre 1969 e aquela data. Omitira 28 desaparecidos. Do total de 79 assassinatos, 46 ocorreram sob o comando de Ustra, o doutor Tibiriçá. Na caserna, dizem os militares, o comandante "é responsável por tudo o que acontece, pelo que sabe e pelo que não sabe". Ustra sabia. Quem afirma são duas dezenas de subordinados do coronel em entrevistas gravadas.

Um destes – o tenente Chico, da PM paulista – contou que o doutor Tibiriçá entrou na Seção de Interrogatório do DOI às 8 horas do dia 24 de fevereiro de 1972. Ali estava o militante Frederico Mayr, do Movimento de Libertação Popular. Treinado em Cuba, ele fora preso na Avenida Paulista, onde levara um tiro no abdôme. “Ô meu filho, fala aí. É melhor para você”, disse o coronel. Mayr lhe deu um chute. Acabou na cadeira do dragão e morto com tiros na cabeça.

Um ano depois, seu colega Antonio Benetazzo seria retirado da cela por agentes do DOI e dilapidado. Afundaram-lhe o crânio a pedradas - a turma queria simular um atropelamento. Elson Costa, dirigente do PCB que se recusara a falar sob tortura, teve parte do corpo queimado antes de ser morto com uma injeção para sacrificar cavalos. Era 1975. “Foi uma barbaridade”, disse em 2004 o tenente do Exército João de Sá Cavalcanti Netto, o agente Fábio, do DOI.

Mayr, Benetazzo e Costa conheceram a tortura e morte no destacamento. Inimigos capturados - eram todos comunistas -, eles não tiveram a sorte de encontrar pela frente o marechal Mallet. Nem Osório. Ao recusar comemorar a vitória sobre os Farrapos, o duque de Caxias, patrono do Exército, pediu que se rezasse um Te Deum: “Eram brasileiros”, justificou-se, lembrando-se dos mortos dos dois lados.

Chamar Ustra de herói é mais do que elogiar um torturador. É fazer o contrário do que deseja a cúpula das Forças Armadas: em vez de pacificar o País, amplia-se o antagonismo social. É desconhecer a pietas, essa virtude cívica romana que Spinosa ligou em sua Ética à civilidade, ao desejo de fazer o bem que surge por vivermos sob a condução da razão. É esquecer as lições dos patronos do Exército. E, sem piedade, como disse Maquiavel, pode-se, de fato, ter o poder, mas não a glória.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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