Antipetista distraído é o único de vermelho em ato em Buenos Aires

Estudante pediu a colega que jogasse camiseta amarela para esconder a que vestia, como se tivesse entrado na torcida errada

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE

13 de março de 2016 | 20h45

BUENOS AIRES - Em meio a 70 manifestantes e um cachorro caracterizados com bandeiras e camisetas em verde e amarelo, o estudante de medicina Jorge Soares, de 26 anos, destoava com sua polo vermelha na tarde deste domingo, 13, no ato pelo impeachment no Obelisco, principal ponto turístico de Buenos Aires. Questionado se reprovava a presidente Dilma Rousseff como os demais ali, disse "claro". Só então, ao notar que essa também podia ser uma dúvida do grupo, pediu a uma colega que jogasse uma camiseta amarela para esconder a que vestia, como se tivesse entrado na torcida errada em um estádio de futebol. Minutos antes, os manifestantes tentaram rimar, depois de cantar o Hino Nacional, a expressão "nossa bandeira nunca será vermelha".

"Nem lembrei da cor da camiseta. O importante é que meu coração é brasileiro. PT fora, PT fora, não tem essa não", afirmou Soares aceleradamente, ansioso para desfazer qualquer dúvida. Espalhados ao seu lado, cartazes pediam a saída da presidente, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e exaltavam a Polícia Federal. Nomes de presos na Lava Jato foram escritos em folhas e colocados no chão, lado a lado. A opinião de Soares sobre o impacto no curto prazo de uma troca no comando do Planalto era similar a de outros manifestantes. "É difícil dizer que mudará de uma hora para outra. Acredito que haverá uma nova ideia de governo, para poder começar do zero novamente, recuperar o que foi perdido", avaliou.

A brasiliense Simone Bispo, outra estudante de Medicina, levava um cartaz com agradecimentos em espanhol ao juiz federal Sergio Moro, em que destacava sua "valentia". Ela justificou o texto na língua local: "Aqui na Argentina ainda se exalta Lula, consideram um exemplo a ser seguido. Vim estudar Medicina aqui porque não tive oportunidade no Brasil. E não tem essa de ser protesto de elite branca. Eu sou pobre", argumentou a estudante de 32 anos, que vive há 5 na Argentina e mostrou desapego à estética em nome do apreço às cores nacionais. Simone usava sobre os olhos uma forte sombra verde, unhas e sapatos azuis e uma bandeira do Brasil como capa. "Primeiro temos que tirar quem está lá, depois resolvemos o que fazer", teorizou.

Como outros estudantes que recebem ajuda em reais do Brasil, ela tem sido beneficiada pela tendência de queda do valor do dólar, associada pelo mercado à perspectiva de uma mudança do governo. Ela aponta essa folga nas finanças como uma razão a mais para participar da manifestação, mas não a principal. Sua colega, Disa Magalhães, de 34 anos, namora um funcionário do Judiciário argentino com quem discute frequentemente o legado de Lula. "Ele acha um absurdo querermos a prisão de um presidente que tirou milhões da miséria. Eu tento explicar tudo o que ele fez errado. O país está um caos", afirmou.

Com duas listas negras horizontais desenhadas em cada lado da face, outro estudante de Medicina, o baiano Emerson Pires, de 22 anos, se dizia pronto para uma "guerra contra a corrupção". Sua indumentária incluía ainda camiseta camuflada, boné das forças especiais do Exército americano e botas. Questionado se não temia ser tomado por defensor de uma intervenção militar, em razão das referências, mostrou-se favorável a um novo governo civil. "Sou contra o comunismo e o socialismo, isso sim. Combinei essa manifestação para as 16 horas aqui e vários posts de petistas tentaram esvaziá-la, remarcando o ato para a Casa Rosada e até para Ezeiza", reclamou Pires, referindo-se ao aeroporto que fica a 31 quilômetros do Obelisco.

Ao perceber que a namorada de Pires, a também estudante de Medicina Mariana Quaiati, tirava fotos do grupo com uma câmera semiprofissional, a administradora Helena Lima, de 40 anos, questionou: "Vocês mandaram para a imprensa daqui? Eles se interessam muito pelo que acontece no Brasil", afirmou. "Sim, se interessam, mas não adianta. Aqui eles são a favor do Lula", respondeu Mariana, irritada. Nos canais de TV local, imagens das manifestações no Brasil foram exibidas durante todo o dia, mas as do ato no Obelisco não apareceram. 

Como alternativa "caseira" de difusão, a paisagista Lígia dias, de 55 anos, há oito na Argentina, fazia um vídeo de si para mandar pelas redes sociais aos parentes. "Pela decência no Brasil, pela corrupção, basta", comentava com a voz impostada, olhando-se no celular. Ao fim da gravação, questionada sobre as alternativas no caso de um impeachment, ela respondeu que sentia necessidade imediata de apoiar a Polícia Federal. "Podem não existir honestos agora, mas com o tempo vão surgir. O custo de deixar como está é muito alto", argumentou.

A reunião de 70 manifestantes de alguma maneira deu orgulho os organizadores, já que foi suficiente para dois policiais perguntaram se o grupo pretendia bloquear o trânsito da Avenida 9 de Julho, a principal da cidade, um recurso comum entre os argentinos. Um ato semelhante de protesto contra o governo no Obelisco chegou a ter uma só ativista há alguns meses. 

Por volta das 17h30, quando o grupo já se dispersava, o mineiro Jefferson Martins, de 28 anos, estudante de engenharia, chegou perguntando se o ato já tinha acabado. Ele trazia pela coleira um argentino enrolado numa bandeira brasileira, o vira-latas Nick. Os gritos de "Lula na Papuda", "Fora Dilma", "Dilmaldita" e "Luladrão" foram deixados de vez de lado e os manifestantes que restaram passaram a tirar fotos com o cachorro, no qual Martins colocou as cores certas. 

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