Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Antiga igreja de Cunha adere à campanha anticorrupção do Ministério Público

Presidente da Sara Nossa Terra, Rodovalho dá apoio a investigações do Ministério Público e diz que igreja tem o 'viés da misericórdia', ao comentar acusações da Lava Jato contra ex-fiel

Entrevista com

Bispo Robson Rodovalho

Ricardo Chapola, O Estado de S. Paulo

05 Novembro 2015 | 09h28

Presidente da igreja evangélica Sara Nossa Terra - frequentada até fevereiro pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha -, o bispo Robson Rodovalho disse em entrevista ao Estado que cabe à Justiça e ao Ministério Público Federal o papel de "instituição inquisidora", enquanto as igrejas têm como prerrogativa o "viés da misericórdia, do amor, do perdão". A denominação de Rodovalho decidiu apoiar a campanha da Procuradoria da República em defesa de dez medidas contra a corrupção, como o religioso anunciou em artigo publicado pelo Estado nesta quarta-feira, 4, no qual afirma ter chegado a hora de sufocar a ação dos corruptos e que os 500 mil fiéis da igreja vão ajudar na coleta de 1,5 milhão de assinaturas. O bispo, no entanto, evitou nesta entrevista falar especificamente das acusações contra o antigo fiel - no mês em que foi eleito presidente da Câmara, Cunha trocou a Sara Nossa Terra pela Assembleia de Deus Madureira.

“O caso específico de Eduardo é um caso muito complicado, porque está no meio do processo, sob investigação. E a igreja, pela sua missão, é uma casa de amor, de perdão. E não só para o caso dele (Cunha), como no caso de qualquer outro cidadão”, afirmou Rodovalho. “A gente entende que as questões pontuais não nos competem. O Brasil tem instituições brasileiras especificamente talhadas para isso. A igreja não é a instituição inquisidora. Isso é muito mais para a Justiça, para o Ministério Público.”

Cunha é investigado no âmbito da Operação Lava Jato, sob suspeita de receber propina com dinheiro desviado da estatal por meio de contas no exterior. O peemedebista nega as acusações. O presidente da Câmara também é alvo de um processo que pode levar à cassação de seu mandato no Conselho de Ética, sob acusação de ter mentido diante dos integrantes da CPI da Petrobrás ao negar ter contas bancárias fora do Brasil.

Independentemente da evolução do caso, Rodovalho disse que a Sara Nossa Terra está de portas abertas ao presidente da Câmara, caso ele queira voltar à igreja. “Não quero comprar indisposição com ele. Se amanhã Eduardo aparecer, ele vai ser bem-vindo como todo mundo. A igreja tem o viés de casa de misericórdia."

 

Por que a Sara Nossa Terra decidiu apoiar a campanha do Ministério Público?

A nossa postura em relação ao apoio às medidas do MP é uma decisão que nós tomamos porque entendemos que a gente tem que ter alguma coisa propositiva para mudar o Brasil. Não basta ficar indo para rua fazer protesto contra a corrupção, contra a política, contra partidos. Tem que fazer uma coisa propositiva. E as 10 medidas são medidas pontuais. A gente entende que são passos que se dão em prol de uma nova cultura. O que é consenso é que tem que se formar uma nova cultura no País do ponto de vista de uma ação política. Para mim, o problema político da corrupção é mais profundo, ela é sistêmica. Ela passa tanto pelo indivíduo quanto pelo sistema. Não estou eximindo os indivíduos de suas responsabilidades. É uma coisa sistêmica. Nós decidimos apoiar as medidas porque a gente acredita que essas assinaturas vão ser um fator a mais de demonstração do anseio da sociedade por mudanças. Uma nova cultura política, é uma coisa mais profunda, mais do que falar de um, de outro, falar de partido, partidarizar.

 

Como o sr avalia a situação de Eduardo Cunha, que até pouco tempo era ligado à igreja agora envolvida em denúncias de corrupção?

Eu não posso, como bispo, fazer avaliações pontuais. Tem muita coisa que é questão da ética da nossa missão que possuímos. Nem sempre a história é completa no meio do caminho. A igreja é uma instituição de muita misericórdia, de fortalecimento da pessoa. Mas ela não pode descuidar de ter uma régua da Justiça, a régua da equidade. Na busca desse equilíbrio é que a gente trabalha esses conceitos. O caso específico do Eduardo é um caso muito complicado, porque está no meio do processo, está sob investigação. Ele está falando que vai explicar. A igreja, pela essência da sua missão, é uma casa de amor, de perdão. Jesus sempre foi incisivo nisso. Não só no caso dele, como no caso de qualquer outro cidadão. E mais ainda que a gente entende que as questões pontuais não nos competem. O Brasil tem instituições brasileiras especificamente talhadas para isso. A gente não sabe para onde isso vai evoluir. A nossa tarefa é trabalhar, conscientizar as pessoas, estabelecendo valores, princípios, pregando sobre isso. Pontualmente a gente não pode ajudar muito. Porque cada caso é um caso, cada pessoa é uma pessoa.

 

A Sara Nossa Terra receberia Eduardo Cunha de novo se um dia ele decidisse voltar?

Se amanhã ele aparecer, ele vai ser bem-vindo como todo mundo. A igreja tem o viés de casa de misericórdia, de amor, de perdão. Ela não é a instituição inquisidora. Isso é muito mais para a Justiça, para o Ministério Público. A igreja é o lugar de ensino, de orientação, de construção de valores, e de ajuda de indivíduos.

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