Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Antes de virada no STF sobre reeleição no Congresso, Twitter teve 707 mil menções ao tema

Postagens foram majoritariamente críticas ao tribunal, segundo a consultoria Bites; personalidades ligadas ao bolsonarismo lideraram repercussão

Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 17h33

De sexta-feira, 4, até domingo, 6, período em que o Supremo Tribunal Federal (STF) analisou a possibilidade de reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado, o Twitter teve 707 mil menções ao tema. A informação é da consultoria Bites, que indica que a repercussão sobre o assunto na rede foi majoritariamente crítica ao STF, gerando a quinta maior onda de questionamentos à Corte desde maio. O levantamento levou em consideração menções ao tribunal e seus ministros, ao deputado Rodrigo Maia (DEM), ao senador Davi Alcolumbre (DEM), e à possibilidade de reeleição dos dois.

O número de menções indica o número de vezes que palavras relacionadas ao tema apareceram na rede, seja em publicações originais, em retuítes (reproduções feitas por outros usuários), ou em hashtags, por exemplo. O pico aconteceu no dia 4, quando teve início o julgamento sobre a questão - quase 419 mil tweets mencionaram o assunto no dia.

Considerando a sexta-feira, 4, as menções ao STF e a seus ministros ficam atrás de outros quatro episódios ocorridos desde maio que geraram ataques ao tribunal. São eles: os mandados de busca e apreensão no âmbito do inquérito das fake news, em maio, a ocasião em que ministros votaram a favor da continuidade das investigações do inquérito e optaram por manter o então ministro da educação Abraham Weintraub na mira das investigações, em junho, quando o ministro Alexandre de Moraes decretou bloqueio a contas de bolsonaristas, em julho, e quando o ministro Luís Roberto Barroso fez uma fala ligando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à defesa da ditadura e da tortura, em agosto. 

Entre todos esses episódios, o que mais repercutiu foi o da ordem de mandados de busca e apreensão no âmbito do inquérito das fake news - na ocasião, a onda de críticas que mencionaram o STF e seus ministros foi mais de quatro vezes superior à onda de críticas que ocorreu nesta sexta-feira, 4, quando teve início o julgamento sobre a reeleição no Congresso. 

O Supremo barrou, neste domingo, a possibilidade de os presidentes da Câmara e do Senado serem reconduzidos ao comando das respectivas Casas. A tendência do plenário era de decidir que a questão era assunto interno do Congresso - o que, na prática, abriria caminho para a recondução. Mas não foi o que ocorreu. Ao longo dos últimos dias, o STF sofreu uma série de críticas por causa do julgamento, o que influenciou o placar final, segundo o Estadão apurou.

De acordo com o levantamento da Bites, entre as 100 postagens no Twitter com mais ‘retuítes’, apenas duas eram neutras em relação ao STF, abordando outros temas. As outras 98 tratavam sobre a questão da reeleição, criticando o tribunal - que, até então, indicava tendência de abrir caminho para que os presidentes das Casas legislativas pudessem se reeleger. 

Segundo a consultoria, usuários ligados ao bolsonarismo lideraram as críticas e a pressão aos ministros na plataforma. Das 20 postagens no Twitter com mais ‘retuítes’, 19 foram de usuários alinhados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ou conhecidos por serem de perfil conservador, entre eles Luis Lacombe e Ana Paula Henkel

Uma publicação do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que é da oposição, também figurou nessa lista, com postagem crítica à possibilidade de reeleição - ele chamou de “casuísmo cínico” o voto de ministros que endossaram a possibilidade de recondução na presidência do Congresso. 

A pressão, segundo a consultoria, se mostrou ainda entre as hashtags que tiveram mais repercussão, com destaque para #STForganizaçãocriminosa, que apareceu em 99,2 mil tweets. Os críticos também usaram  #STFvergonhanacional e #STFvergonhamundial (38,1 mil e 23,8 mil tweets, respectivamente).

Segundo o gerente de Relações Governamentais da Bites, André Eler, o volume das críticas em relação ao tema foi “maior do que o comum”, mas se insere num contexto de questionamentos recorrentes que usuários da base do presidente Bolsonaro fazem a ministros do tribunal. “A gente vê que essas críticas ao STF, principalmente por parte de bolsonaristas, vêm se tornando muito constantes desde 2019”, diz ele. 

‘Pauta unificou, mas com viés bolsonarista’

O pesquisador Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudo sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, também colheu, a pedido do Estadão, dados sobre a repercussão da decisão do STF nas redes. Segundo o pesquisador, entre sexta-feira, 4, e a manhã desta segunda-feira, 7, foram mais de 444 mil postagens no Twitter que falaram sobre STF e reeleição, entre publicações originais e retuítes. 

"As palavras STF e reeleição foram muito utilizadas pela rede bolsonarista, que fez campanha contra a reeleição”, afirma Malini.  Segundo o pesquisador, o tema unificou usuários da direita à esquerda, mas foi alavancado por perfis mais ligados ao presidente Jair Bolsonaro. “O movimento mais forte foi ligado a bolsonaristas, parcialmente ligado à chamada direita liberal, como de membros do Movimento Vem Pra Rua, e um pouco menos de figuras da esquerda. A pauta unificou, mas com forte viés dado pelos bolsonaristas.”

A cúpula do Congresso

A eleição para o comando das Casas do Congresso é a disputa política mais importante do próximo ano - está marcada para fevereiro de 2021. Os presidentes da Câmara e do Senado comandam a agenda legislativa do País, articulam a estratégia para a aprovação de reformas prioritárias do governo e são responsáveis por controlar não apenas a abertura de CPIs, mas também o andamento de pedidos de impeachment – do presidente da República, no caso da Câmara; dos ministros do STF, no caso do Senado.

A decisão de barrar a possibilidade de reeleição no comando das Casas foi recebida com ‘alívio’ no Planalto, que fez todos os movimentos para impedir a recondução de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Câmara.

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