Aprosoja
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Antes de ser alvo da PF, presidente da Aprosoja confirmou apoio a ato de 7 de setembro

Agricultor de MT disse ao Estadão que entidade está “apoiando” movimento. PGR suspeita que ele financie ato contra o STF

André Shalders, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 17h05

BRASÍLIA - O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Antônio Galvan, admitiu ao Estadão que a entidade está apoiando a manifestação do dia 7 de setembro em Brasília, pedindo o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a instituição do voto impresso nas eleições de 2022. A proposta já foi analisada e rejeitada pela Câmara dos Deputados na semana passada. Galvan foi um dos alvos da operação da Polícia Federal na manhã desta sexta-feira, dia 20.

Além de Galvan, a Polícia Federal também cumpriu mandados de busca e apreensão contra o cantor sertanejo e ex-deputado Sérgio Reis (Republicanos-SP) e o deputado federal Otoni de Paula (PSC-RJ) por envolvimento com a organização dos protestos. As medidas foram determinadas pelo ministro do  STF Alexandre de Moraes, atendendo a um pedido da Procuradoria Geral da República (PGR).

A ação foi motivada pela divulgação de um vídeo e de um áudio de Reis no qual o cantor diz que o movimento dará “uma ordem” ao Senado para que aceite pedidos de impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Se a determinação não for cumprida em até 72 horas, o movimento irá “quebrar tudo” e remover os ministros do STF “na marra”, ameaçou Reis.

Em conversa com o Estadão na quarta-feira, Galvan confirmou que a entidade está apoiando o movimento marcado para 7 de setembro — no mesmo dia, a entidade emitiu nota negando relação com o ato. “A Aprosoja apoia o movimento do dia 7 de setembro”, disse o presidente à reportagem, por meio de mensagem de texto. “O Movimento Brasil Verde Amarelo, junto com mais de uma dezena de outros grupos, são (sic) os realizadores do movimento de 7 de setembro”, continuou ele. Galvan negou, no entanto, estar financiando a vinda de manifestantes à capital federal. “Cada um que está indo a Brasília, é com recurso próprio”, disse. Procurado novamente na manhã desta sexta-feira, dia 20, ele não respondeu.

O “Movimento Brasil Verde e Amarelo” aludido por Galvan foi o grupo responsável por um protesto em Brasília em apoio a Bolsonaro em 15 de maio, sob o título de “Marcha da Família Cristã pela Liberdade”, e com o slogan “O Agro e o Povo pela democracia”. À época, a pauta era “o fim das políticas de lockdown” usadas para conter a disseminação do coronavírus, além do voto impresso e de “um supremo tribunal decente”. O presidente Jair Bolsonaro foi à Esplanada dos Ministérios receber os manifestantes acompanhado de ministros. Ele posou para fotos e desfilou montado a cavalo.

Durante o ato do dia 15, vários manifestantes portavam faixas pedindo “intervenção militar”. No carro de som principal, em que Bolsonaro discursou, uma faixa trazia os dizeres “Faça o que for preciso! Eu autorizo, presidente!”.

A reportagem também questionou o presidente da Aprosoja sobre a relação da entidade com o cantor Sérgio Reis. O áudio e o vídeo nos quais o cantor convoca para os protestos foram gravados em uma reunião na sede da entidade em Brasília, no Lago Sul, na sexta-feira passada. “O Sérgio Reis nos fez uma visita na sede da Aprosoja Brasil. Ficamos muito gratos por isso. Pelo cidadão que ele é e o que ele representa”, disse ele ao Estadão. Galvan se recusou, no entanto, a dizer se tinha remunerado Reis para divulgar os protestos. “Pergunta pra ele”, respondeu.

Ao pedir a realização de busca e apreensão contra Reis, a Procuradoria-Geral da República indicou suspeitar que ele esteja financiando os organizadores do ato do dia 7 de setembro. “São doações de particulares para financiar a paralisação planejada por Zé Trovão (suposto caminhoneiro citado por Reis no áudio), possivelmente patrocinada por Antonio Galvan e amplamente divulgada por Wellington Macedo (Youtuber bolsonarista)”, diz um trecho do pedido da PGR.

No mesmo dia em que Galvan conversou com a reportagem do Estadão, a Aprosoja divulgou nota negando apoio ao ato. No texto, a entidade diz que “não financia e tampouco incentiva a invasão do Supremo Tribunal Federal (STF) ou quaisquer atos de violência contra autoridades, pessoas, órgãos públicos ou privados”. “Historicamente, a Aprosoja Brasil somente apoiou movimentos pacíficos e em conformidade com a Carta Constitucional brasileira”

“Severino Cavalcanti da soja”

De acordo com um deputado de Mato Grosso, que concordou em falar sob anonimato, a chegada de Galvan ao comando da Aprosoja em março foi o resultado de um movimento de médios e pequenos produtores, que se juntaram para derrotar os “grandes” na disputa pelo comando da entidade. “Foi uma espécie de Severino Cavalcanti da soja”, disse o deputado. A referência é ao ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (1930-2020), que ocupou o posto máximo da Casa de fevereiro a setembro de 2005. Cavalcanti foi eleito em um movimento do “baixo clero” da Câmara contra o governo do ex-presidente Lula (PT).

Antônio Galvan, 64, é natural de Sananduva (RS), e possui formação técnica em contabilidade. Depois de morar no Paraná, ele se assentou com a família em Mato Grosso, em 1986. Hoje, possui propriedade rural no município de Vera, no norte do Estado. O envolvimento com os produtores rurais é antigo: foi presidente do Sindicato Rural de Sinop (MT) e diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), antes de se tornar presidente da Aprosoja Brasil, cargo que ele conquistou em março deste ano.

Segundo políticos ligados ao agronegócio em Mato Grosso, Galvan não é considerado um “grande” produtor. Embora suas plantações de soja ocupem alguns milhares de hectares no Estado, a operação comandada por ele é relativamente pequena se comparada com outros agricultores da região, como o ex-governador e ex-senador Blairo Maggi. Um dos maiores produtores de soja do mundo, Maggi criticou Galvan e Sérgio Reis por defender os protestos contra o STF, no começo da semana.

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