Antes de sair, quase cinco meses de manobras e discursos

De maio até agora, presidente do Senado fez de tudo para manter o cargo

Guilherme Scarance, O Estadao de S.Paulo

13 Outubro 2007 | 00h00

"Lá adiante, quando eu provar a minha inocência, espero que todos respondam pela sua precipitação, pela sanha acusatória e tentativas de subtrair o sagrado direito de defesa e fragilizar voluntariamente o cargo de presidente do Senado." O desafio, lançado da tribuna pelo então presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), em 7 de agosto, destoa das quatro primeiras palavras pronunciadas quinta-feira na TV Senado - "Hoje decidi me licenciar". Foi a última guinada na longa estratégia de sobrevivência deflagrada pelo senador, que brigou 139 dias pelo cargo, dizendo tirar sua força "do tamanho da inocência". Desde 25 de maio, quando foi acusado de ter contas pagas por um lobista da Mendes Júnior - incluindo a pensão da jornalista Mônica Veloso, fenômeno da Playboy, com quem o senador teve uma filha fora do casamento -, a sua defesa foi marcada por uma seqüência de vaivéns e complicações. Na sessão da última terça-feira, dois dias antes de pedir licença do cargo por 45 dias, por exemplo, o cacique declarava em alto e bom tom, em meio a ataques desferidos da tribuna contra ele: "Devo esclarecer que sou presidente do Senado." Chefe do Congresso por duas vezes, Renan apresentou sua primeira defesa um dia depois da primeira denúncia da revista Veja. Em 26 de maio, por nota, usou palavras contundentes: "Nunca", "jamais" e "intolerável". Como as cobranças se avolumaram, ele fez um longo discurso, de 2.388 palavras, no dia 28. Dizia que que iria "rasgar a alma" e "confessar pecados", tratando o caso como um problema conjugal. Falou em "provas irrefutáveis", mas deixou uma brecha: a origem dos R$ 8 mil mensais pagos a Mônica antes de reconhecer a paternidade. Indagado pela primeira vez se pensava em afastamento ou renúncia, foi direto: "Não, porque não há nenhuma acusação contra mim." O mês de junho mostrou que a crise não seria solucionada tão facilmente: o Conselho de Ética acatou denúncia do PSOL, o senador correu atrás de novas provas e vieram à tona as suspeitas sobre as notas fiscais e a papelada de sua defesa. A evolução do patrimônio foi questionada. Por fim, sob pressão, dois relatores e o presidente do conselho renunciaram. "Não vou desonrar o Senado e lutarei até o fim", avisou o chefe do Senado, em 16 de junho, para parlamentares aliados. "Com serenidade e reflexão, entendo que devo permanecer na presidência do Senado, mesmo que com isso contrariem-se apetites políticos de ocasião", reagiu Renan, quando cobrado pelo líder tucano, Arthur Virgílio (AM), em 3 de julho. "Que é que há contra mim? Qual é a acusação que me fazem? Que eu tive um filho fora do casamento?", esbravejou, dois dias depois. Em meio ao tradicional mês de recesso no Legislativo, veio à tona a segunda denúncia, de que ele teria favorecido a Schincariol no INSS e na Receita. Novo processo. Em agosto, mais pressão, com a denúncia de que teria usado laranjas para comprar duas rádios e um jornal. Virou alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), teve o sigilo quebrado, veio o terceiro processo. Perícia da Polícia Federal apontou mais suspeitas. No dia 7, Renan disse ser vítima de "ignomínias, perfídias, insídias": "Todas originadas da briga paroquial, de interesse regional, e alimentada por derrotados rancorosos como João Lyra e a ex-senadora Heloísa Helena, que tentam reinserção na vida política." Veio a quarta denúncia - o lobista Luiz Carlos Coelho arrecadaria dinheiro em ministérios do PMDB. Era setembro, mês em que o senador teve a maior vitória: foi inocentado do primeiro pedido de cassação, em sessão secreta, por 40 votos a 35. "Renúncia não faz parte da minha personalidade", avisava, um dia antes. No dia seguinte, atacado, ironizou: "A democracia é bela porque permite momentos como este." Deu entrevista: "Deus não me deu o dom da desistência." Nos dias seguintes, foi recebido por Lula e brigou pelo voto secreto. Renan ajudou a derrubar a MP que criava a Secretaria de Mangabeira Unger e 660 cargos e emplacou o aliado Almeida Lima (PMDB-SE) para relatar o quarto processo. Manobras na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) e a quinta acusação - de que o assessor Francisco Escórcio espionou parlamentares - mudaram sua sorte. Temendo pela renovação da CPMF, o Planalto pressionou. Por fim, abandonado pelo PT e PMDB, Renan mudou o discurso e se afastou: "A fim de demonstrar de forma cabal e respeitosa à Nação e a todos os ilustres senadores que não precisaria do cargo de presidente do Senado Federal para me defender."

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