JF Diorio/Estadão
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Antes de demissão, secretário de Covas enfrentou pressão por segurar gastos de secretarias

Mauro Ricardo fez pastas segurarem orçamento para ano eleitoral, mas, com pandemia de covid-19, investimentos não foram feitos

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 16h57
Atualizado 23 de abril de 2020 | 21h48

O secretário de Governo da gestão Bruno Covas (PSDB), Mauro Ricardo, que anunciou sua saída nesta quarta-feira, 22, vinha enfrentando desgastes na Prefeitura de São Paulo que contribuíram para sua saída.

Desde que chegou à Prefeitura, em outubro de 2018, Ricardo buscou segurar o repasse de recursos para as demais secretarias, de modo a criar uma reserva para investimentos mais vultosos em 2020, ano eleitoral. Neste ano, a cidade alcançou um orçamento para investimentos na ordem de R$ 5 bilhões. 

Essa atitude gerou desgaste interno, uma vez que os recursos para diversas ações não sairam, e secretários ouvidos pelo Estado avaliavam a situação como irreversível. Com a crise do coronavírus e a inversão da lógica de austeridade adotada até o momento, Ricardo deixou o posto. A Prefeitura informou que o ex-secretário não foi exonerado e negou a existência de qualquer descontentamento em relação à sua atuação (leia nota abaixo).

Na Câmara Municipal, aliados de Covas avaliam haver espaço para o agora ex-secretário participar da campanha do prefeito à reeleição.

Em nota, a Prefeitura informou que Mauro Ricardo decidiu voltar à Prefeitura de São Paulo com compromisso de trabalhar até dezembro de 2019 e que, passados os cinco meses “extras”, deixou o posto de forma combinada com o prefeito. A assessoria de imprensa de Ricardo não comentou.

Nos últimos dias, alguns vereadores vinham promovendo uma fritura de Ricardo por outro motivo. O ex-secretário foi alvo de uma representação ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP) durante a crise do coronavírus por supostamente ter mantido no trabalho presencial funcionários do grupo de risco para o novo coronavírus. Entre os servidores, segundo a denúncia, havia copeiros que tiveram seu trabalho descrito como “essencial” e que tiveram de trabalhar.

Segundo decreto do prefeito publicado no dia 20 de março, servidores com doenças crônicas e os idosos não seriam mais obrigados a comparecer ao trabalho, com exceção daqueles que ocupam postos em áreas essenciais, como nas secretarias da Saúde e da Segurança Urbana.

No caso da Secretaria de Governo, além de copeiro, haveria ao menos outros seis servidores que deveriam permanecer em casa, mas se viram obrigados a continuar o trabalho presencial, no Edifício Matarazzo, no Viaduto do Chá. 

Os nomes dessas pessoas foram repassados à Promotoria de Direitos Humanos do MP-SP, que pediu informações à Prefeitura. A resposta enviada à promotoria negou que houvesse servidores nessa situação e a promotora Anna Trotta Yaryd determinou o arquivamento do caso, sem instauração de inquérito.

O caso, entretanto, chegou à Câmara Municipal e foi explorado por parlamentares como Caio Miranda (DEM), que citou a situação em suas redes sociais.

A assessoria de Ricardo ressalta que o procedimento no MP foi arquivado e afirma que a saída do secretário não tem relação com o caso. A Secretaria Municipal de Comunicação foi questionada, mas não comentou a apuração feita pelo MP, destacando que o decreto que estabeleceu o isolamento dos servidores em grupos de risco vinha sendo cumprido.

Nota da Prefeitura

A Prefeitura reitera que o ex-secretário Mauro Ricardo não foi exonerado e nega taxativamente a existência de qualquer descontentamento em relação à sua atuação à frente da Secretaria de Governo. Ao contrário, o desempenho do ex-secretário Mauro Ricardo, bem como de sua equipe, foi fundamental para a recuperação das finanças da cidade de São Paulo com o reconhecimento de instituições internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que voltou a liberar empréstimos para a cidade de São Paulo justamente por causa da viabilidade financeira e fiscal do município. E embora tenha deixado a secretaria depois do prazo combinado com o prefeito Bruno Covas, o ex-secretário foi convidado e aceitou continuar colaborando informalmente com a gestão.

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