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Antes de busca, Fernando Sarney mandou limpar gavetas

No diálogo, ele sugere à auxiliar pegar caixa e guardar tudo que tinha na mesa, em lugar seguro

Rodrigo Rangel, de O Estado de S.Paulo,

15 de setembro de 2009 | 16h26

Um telefonema de 3 de setembro de 2008, listado em um relatório da Polícia Federal ao qual o Estado teve acesso, ajuda a reforçar a tese de que a família Sarney se beneficiou do vazamento de dados da Operação Boi Barrica. Nele, Fernando Sarney liga para sua secretária, em São Luís, para pedir que ela esvaziasse as gavetas de sua mesa. Esta matéria estava pronta há mais de um mês, mas só pôde ser publicada nesta terça-feira, 15, devido ao fim da censura imposta ao Estado.

 

"Eu queria que você fizesse o seguinte, tudo que está em cima da mesa. Tu deixa, eu quero que você pegue uma caixa, tire tudo que está nas gavetas, tudo, tudo, tudo, bota numa caixa e guarda contigo em algum lugar, tá? Quando eu chegar eu te digo o que fazer", orientou.

 

"Fernando ainda tenta justificar tal pedido como se fosse ocorrer uma troca de móveis ou uma limpeza", afirma o relatório da PF.

 

O delegado lista outros sinais do que, a seu ver, não deixa dúvidas sobre o vazamento, para Fernando Sarney, de informações sobre os pedidos de prisão e busca. Ainda no dia 3 de setembro, os investigadores interceptaram um e-mail enviado por Ana Clara Sarney, neta do presidente do Senado e filha de Fernando. A mensagem informava os números de quatro procedimentos relacionados à investigação - todos corriam sob segredo. O e-mail de destino era j.sarney@uol.com.br.

 

Em uma conversa naquela mesma data, Fernando pergunta a Gianfranco Perasso, um ex-colega de faculdade que a PF diz ser sócio dele: "Tomaste todas as tuas providências, né?", afirma o texto. "Sem alarde, tá bom? E sem apavoramento também", continua o empresário, para, em seguida, pedir a Gianfranco que repassasse a orientação a Flávio Lima.

 

Minutos depois, Gianfranco recebe ligação em que surge o nome de outro investigado, o ex-ministro das Minas e Energia Silas Rondeau, mais um que, segundo a Polícia Federal, atua em parceria com Fernando Sarney. A ligação é de um assessor de Rondeau. Queria avisar que ele e o ex-ministro tinham acabado de chegar a São Paulo. Gianfranco diz que precisava falar "urgente" com os dois.

 

Prisão suspensa

 

De posse das informações sobre o pedido de prisão, os advogados de Fernando Sarney correram para levantar mais informações. Num telefonema gravado pela polícia, Paulo Baeta diz a Fernando que enviou um emissário ao Maranhão, para consultar o processo. "O nosso advogado foi lá em São Luís, viu tudo, eu estou aqui com um relatoriozinho para lhe mostrar", disse ao empresário.

 

A primeira ligação de Sarney para Fernando se deu oito dias após o delegado ajuizar os pedidos de prisão e busca, e uma semana antes de o juiz decidir. Em 5 de setembro, Neian Cruz negou a prisão de Fernando e dos demais investigados, mas autorizou a busca e apreensão. O delegado Márcio Anselmo, porém, considerou que, devido ao vazamento, já não havia razão para cumprir os mandados. "As medidas deferidas por esse juízo tornar-se-ão inócuas, uma vez que os locais objeto de busca já foram devidamente limpos", escreveu.

 

A PF informa no relatório que, após os telefonemas, tentou identificar para onde foram levados documentos retirados dos locais das buscas, mas não obteve sucesso. "O cumprimento de tais medidas, de acordo com o que se pode observar do comportamento dos alvos, não surtirá os efeitos que objetiva a medida, gerando apenas gravames, bem como dificuldades de logística e despesas ao erário público", diz o texto, que encerra requerendo ao juiz a desistência da busca "para que se continue a investigação sem deflagrar a fase ostensiva até nova reavaliação". Até hoje, as buscas não foram realizadas.

 

Leia a transcrição das conversas

 

03set2008

10h04min59s

 

Em Brasília, Fernando Sarney telefona para sua secretária em São Luís, Ângela Balby, e pede que ela esvazie suas gavetas.

 

Fernando Sarney - Eu queria que você fizesse o seguinte, tudo que está em cima da mesa. Tu deixa, eu quero que você pegue uma caixa, tire tudo que está nas gavetas, tudo, tudo, tudo, bota numa caixa e guarda contigo em algum lugar, tá? Quando eu chegar eu te digo o que fazer.

Ângela - Tá bom, o que está na mesa pode deixar, né?

 

Fernando - O que está em cima pode deixar tudo.

Ângela - Tá bom, o senhor quer falar com dona Teresa [Murad, mulher de Fernando]?

 

Fernando - Não, não tem nada mas eu não estou para eu fazer a limpeza, para poder mudar o móvel, porque eles vão mudar o móvel, né? Pega tudo, põe numa caixa, quando eu chegar eu vejo o que é que a gente tem que jogar fora.

 

04set2008

12h07min59s

 

Fernando Sarney fala com Gianfranco Perasso, que segundo a PF seria um de seus testas de ferro em empresas que atuam em contratos com órgãos do governo, e pergunta se ele já havia adotado todas as "providências". Fernando pede que Gianfranco avise também Flávio Lima, outro sócio do grupo, de acordo com a PF.

 

Fernando Sarney - China Boy!

Gianfranco Perasso - Diga.

 

Fernando - Muito bem, bom, tomaste todas as tuas providências, né?

Gianfranco - (ininteligível) Tudo.

 

Fernando - Ok. Tá bom, sem alarde, tá bom? E sem apavoramento também, tá?

Gianfranco - (ininteligível)

 

Fernando - Tudo tranquilo.

(...)

Gianfranco - As coisas estão andando bem, sem problemas.

 

Fernando - Ok, é aquilo que eu te falei, ta? Fala com Flavinho também, e é isso aí, ta? Tá bom. Fica tranquilo, tá?

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