Antes da chegada do general Setembrino, rebeldes obtiveram algumas vitórias

Para proteger suas terras, rebeldes incendiaram serrarias, depósitos de madeiras e estações de trens

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h00

O Contestado vivia um clima de ódio e medo propício para o massacre aos rebeldes. Fazendeiros, autoridades municipais e representantes da empresa Lumber, concessionária das terras às margens da ferrovia, contabilizam prejuízos com os incêndios de estações de trem, sedes de fazenda e prédios públicos. A versão raivosa deles encobria o terrorismo praticado por seus pistoleiros nos pequenos sítios da beira da São Paulo-Rio Grande do Sul e nos centros dos povoados.

 

Dias antes do general Setembrino de Carvalho desembarcar no Paraná, a 5 e 6 de setembro de 1914, os rebeldes obtiveram suas maiores vitórias desde o início da revolta, em outubro de 1912. Um grupo de 200 homens liderado por Bevenuto Baiano, de 16 anos, incendiou a serraria e os depósitos de madeira da Lumber e a estação de trem do vilarejo de Calmon. Depois, destruíram as casas do povoado de São João dos Pobres e tocaram fogo na estação de Nova Galícia, em Porto União.

 

Um combate entre o grupo de Baiano e do capitão do Exército João Teixeira de Matos Costa, 38 anos, em São João dos Pobres, resultou na morte do oficial e de outras 62 pessoas. Além de rebeldes e militares, morreram naquele dia no Contestado o telegrafista de Calmon, Sebastião Antônio, e um colono, Antonio Link. A Lumber perdia a sua segunda maior serraria. A maior era a de Três Barras.

 

Há registro de um bilhete deixado sob as cinzas da estação de Calmon atribuído aos rebeldes. "Nós tratava de nossas devoções e nem matava e nem roubava. Mas veio o governo da República e tocou os filhos brasileiros dos terrenos que pertencia à nação e vendeu tudo para os estrangeiro. Nós agora estamos dispostos a fazer prevalecer nossos dereitos."

 

 

"Euclidianos e Bárbaros". Até a chegada de Setembrino, o Exército se dividia sobre o modelo para acabar com os redutos dos "fanáticos". Os documentos militares analisados pelo Estado mostram uma instituição dividida. O capitão Matos Costa, morto pelos rebeldes, era justamente o oficial que representava o pensamento da geração militar que esteve em Canudos, em 1897, em posições de baixas patentes, e que, agora, buscava formas repressivas mais alinhadas à opinião pública do Rio de Janeiro. Essa geração subia os degraus da carreira militar em meio ao sucesso do livro "Os Sertões", de Euclides da Cunha, que denunciou as degolas de civis no sertão baiano.

 

Matos Costa escreveu que o Contestado era uma "insurreição de sertanejos espoliados nas suas terras". O capitão fez denúncias contra desmandos de coronéis da região e representantes da Lumber, uma companhia que importou pistoleiros do interior dos Estados Unidos para proteger suas instalações no Brasil. Em relatório enviado para o comando do Exército, no Rio, o capitão destacou que o coronel Fabrício Vieira, rei da erva mate em Santa Catarina e apoio dos militares, havia derramado dinheiro falso no comércio.

 

Embora Setembrino tenha optado por uma guerra total contra os caboclos do Contestado, recorrendo a práticas denunciadas por Euclides, relatórios feitos durante a sua campanha expõem de forma escancarada a divisão de pensamento do oficialato brasileiro. Uma parte dos documentos exalta o massacre dos caboclos. Outra parte, não menos evidente, deixa claro o desconforto pela matança. Nem todos os oficiais que foram guerrear no Contestado tinham o mesmo pensamento dos chefes combatentes de Canudos. A campanha militar no Sul ocorria dez anos depois da publicação de "Os Sertões". Nem por isso, o Contestado deixou de assistir degolas, fuzilamentos de prisioneiros e violências sexuais contra nativos.

 

Criminosos. Setembrino estava disposto a cumprir sua missão. A ordem desejada pelo Exército era acabar com o terror apenas do lado dos rebeldes. A 8 de janeiro de 1915, o capitão Manoel dos Passos Figueroa escreve que tentou entendimento com grupos concentrados no reduto de Tavares, dias antes da tomada de Santa Maria, em Timbó Grande. O documento é direcionado para o coronel Julio Cesar Gomes da Silva, comandante da Coluna Leste. No relatório Figueroa afirma que o líder rebelde Tavares tinha levado muitos homens ao nível de "criminosos perturbadores da ordem e das instituições".

 

Leia abaixo o relatório dos militares: "Vós que vois acháveis no alto daquela posição"

 

"Ao alvorecer de 8, ouviu-se a fuzilaria das tropas encarregadas de assalto às posições de Tavares. Organizei com a vossa autorização uma pequena expedição composta de 20 homens. Encetei a descida pela encosta de nossa posição, transpuz a grande roça que nela existe e alcancei a margem esquerda do rio Itajahy, onde achavam-se em bivaque 32 homens, 34 mulheres e 52 creanças. Effectuei a descida em uma hora. Dirigi a palavra a todos, convencendo-os de que vós que vos acháveis no alto daquela posição teríeis os melhores sentimentos em recebel-os, agasalhando-os. Que Tavares o famigerado bandido, os havia levado a aquele antro, segregando-os da sociedade, para explorar torpemente os seus serviços tão caros e tão benéficos à lavoura a que antes se entregavam e de onde tiravam honestamente os meios de subsistência; que esse bandido os obrigaria a rebelarem-se contra as autoridades que representam a lei, tornando-os criminosos perturbadores da ordem e das instituições do Payz; que éramos todos brasileiros e que, filhos do mesmo torrão, deveríamos trabalhar igualmente para o seu engrandecimento, norteando o nosso pensamento para um único fim - o bem público. Determinei que retirassem as espoletas das armas (todas de auto-carga) declarando-lhe que compareceriam ante vós armados como haviam sido encontrados e que para mim nada significaria a sua posição alli; com armas, pois a força que commigo se achava era sufficiente para derrotal-os, caso lhes viesse o arrependimento de se haverem entregado."

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