"Anjos da Guarda" e pressão em ato por Tim Lopes

Os três meses do assassinato de Tim Lopes pela quadrilha do traficante Elias Maluco, completados no dia 2, foram lembrados neste domingo, no sétimo ato em memória do repórter, o primeiro realizado na Penha, bairro da zona norte onde o crime foi cometido.A manifestação ocorreu aos pés da escadaria da Igreja da Penha, pois não foi possível realizá-la na quadra da Favela Vila Cruzeiro, onde acontecem os bailes funk que Lopes tentava filmar no dia de sua morte, como queriam os organizadores.?Anjos da Guarda?Durante a homenagem, que teve a participação de aproximadamente 80 pessoas, era possível ouvir diálogos de traficantes da região por meio de walkie-talkies com alcance de três quilômetros. Integrantes de um grupo denominado Anjos da Guarda, Henrique Maia e Auta Maia, participaram da manifestação.Vestidos com jaquetas e boinas vermelhas, eles acompanhavam as conversas dos criminosos. Segundo Henrique, eram seis homens, quatro identificados pelos codinomes Fiel de Deus, Holywood, Bin Laden e Tropical. Em código, pareciam negociar drogas. ?Um deles disse: Tô vendo a movimentação dos carros subindo. Olha a Globo ali?, disse Henrique.Os ?Guardian Angels? foram fundados nos Estados Unidos em 1979 por Curtis Sliwa. A filial brasileira, em 1983. O grupo prega a ação civil contra o crime. Nenhum parente de Lopes participou do ato. ?Todos foram convidados?, afirmou o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio, Nacif Elias.PressãoNo dia 2, André Martins, advogado de Alessandra de Araújo Wagner, viúva de Lopes, acusou a TV Globo de ter exposto o repórter ao perigo e de proteger o informante responsável pela denúncia que originou a matéria na Vila Cruzeiro. Segundo essa versão, o nome da fonte é mantido em sigilo pela emissora, que não o revelou nem à Polícia, nem à Justiça.Nacif afirmou que a comunidade da Vila Cruzeiro, no mesmo bairro, foi pressionada pelo tráfico para que a manifestação não acontecesse lá. Ele, porém, não desiste. ?Essa idéia ainda não morreu. A gente conversa com a comunidade para saber a hora?, disse o sindicalista, que aposta na implantação do Grupo de Policiamento de Áreas Especiais (Gpae) da PM na favela. ?Estamos levando muita fé nisso. Pode ser o primeiro passo para outros projetos.? Segundo Nacif, o Gpae deve começar a atuar nesta segunda-feira na Vila Cruzeiro.A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Beth Costa, disse que a pauta que levou Lopes à Vila Cruzeiro, a exploração sexual de menores em bailes funk, ainda não foi concluída. ?Por que a gente não faz essa matéria? É uma proposta que eu deixo aqui, um convite.? Ela destacou a importância de não se permitir que o caso caia no esquecimento e a ausência de representantes da comunidade no ato. ?Não pode existir lugar onde as pessoas se sintam intimidadas de ir, de falar o que elas pensam. Não pode acontecer isso no Rio de Janeiro.?Emocionada, Meire Bispo da Luz, de 53 anos, passou mal e desmaiou durante o ato. Avó de uma menina desaparecida há 17 anos, Meire era um dos parentes de vítimas da violência que compareceram à manifestação. Ela foi levada para o Hospital Getúlio Vargas. Os governos federal, estadual e municipal enviaram representantes ao ato. Estiveram presentes também o presidente da Assembléia Legislativa, Sérgio Cabral Filho, e o deputado Chico Alencar (PT).

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