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ANJ premia equipe da ‘Gazeta do Povo’

Jornal foi alvo de processos movidos após série de reportagens sobre remuneração do Judiciário e membros do Ministério Público paranaenses; cerimônia do Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa 2016 ocorre nesta quarta-feira, 27, em Brasília

O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2016 | 23h58

BRASÍLIA  - Alvo de processos movidos após uma série de reportagens sobre remuneração do Judiciário e membros do Ministério Público paranaenses, um grupo de jornalistas da Gazeta do Povo recebe, na tarde desta quarta-feira, 27, em Brasília, o Prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa 2016. 

O prêmio é um reconhecimento aos jornalistas Chico Marés, Euclides Lucas Garcia, Rogério Galindo, Evandro Balmant e Guilherme Storck e ao jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, por divulgarem, em fevereiro, em meio a pressões corporativas, reportagens sobre remunerações acima do teto. A equipe sofreu 48 ações por danos morais. A investida na Justiça provocou repúdios de entidades nacionais da imprensa, como a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert).

É a segunda vez que a ANJ premia um jornal. Em 2011, o Clarín, de Buenos Aires, recebeu a distinção por sofrer represálias do governo de Cristina Kirchner. Criado há oito anos, o prêmio já foi concedido a dois magistrados, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Brito, em 2008, que fez um relatório sobre a incompatibilidade da antiga Lei de Imprensa com a Constituição, e a atual presidente do STF, Cármen Lúcia, no ano passado, por votar contra a necessidade de autorização prévia para biografias.

Desta vez, a ANJ decidiu conceder o prêmio para questionar claramente o Judiciário. “O prêmio é para prestigiar, em primeiro lugar, o bom jornalismo. Depois, a questão que se colocou para a diretoria da ANJ é que os magistrados paranaenses não buscaram Justiça, mas apenas constranger o livre exercício do jornalismo”, afirmou Ricardo Pedreira, presidente da entidade. “A ANJ já prestigiou o Judiciário, um dos Poderes da República, que tem nosso total respeito, e não questiona o direito, mesmo de juízes, de buscar seus direitos. Mas não é aceitável e cabível o uso da Justiça para impedir e restringir o direito do cidadão de ser bem informado.”

Recurso. Numa primeira análise do caso, a ministra Rosa Weber, do STF, negou pedido para suspender a série de ações. Depois, ao avaliar recurso apresentado pela Gazeta do Povo, ela mudou de posição. No recurso, o jornal apresentou um áudio em que o juiz Walter Ligeiri Júnior, de Paranaguá, afirmou que os jornalistas teriam que viajar muito para responder processos e 700 magistrados preparavam ações contra o jornal e seus profissionais. O presidente da ANJ disse esperar, agora, a derrubada das ações na discussão do mérito. A ANJ e a Abert também são partes do processo para suspender as ações coordenadas.

O diretor de Redação da Gazeta do Povo, Leonardo Mendes Júnior, observou que a cobertura de Judiciário, em qualquer lugar do País, é “delicada” pela “grandeza” e “complexidade” das questões da área, exigindo uma formação diferenciada dos jornalistas. Ele ressaltou que a série de reportagens da equipe da publicação “jogou luzes” em informações de portais de transparência de órgãos oficiais. “Esse conjunto de reportagens acabou tocando em um ponto caro, que é a remuneração. Muita gente (no Judiciário) entendeu como um debate público necessário, mas alguns não entenderam assim e expuseram uma lógica corporativa”, disse. “De fevereiro para cá, a nossa cobertura segue normalmente. Voltamos ao debate sempre que achamos necessário. Não há constrangimento em discutir assuntos do Judiciário porque isso faz parte do nosso trabalho.”

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