Anistia pede que Dilma discuta Guantánamo com Obama

Para representante da ONG, temas são justificados devido ao papel atual do Brasil no cenário internacional.

BBC Brasil, BBC

17 de março de 2011 | 16h25

Encontro entre Obama e Dilma deve se concentrar em temas comerciais

A Anistia Internacional espera que a presidente Dilma Rousseff inclua na agenda de seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, temas como a vigência da pena de morte nos Estados Unidos, o fechamento da prisão americana na Baía de Guantánamo e um questionamento a práticas da chamada guerra ao terror, como as detenções ilegais promovidas por forças americanas em outros países.

O líder americano chega ao Brasil neste sábado e permanece no país até segunda-feira pela manhã.

No entender de Patrick Wilcken, pesquisador de Brasil da organização de direitos humanos, os temas que a entidade gostaria de ver discutidos não são ambiciosos demais, se levado em conta o papel atual do Brasil no cenário internacional.

''O Brasil é uma economia emergente que está desempenhando um papel bem mais importante no mundo hoje em dia e está encontrando a sua voz em temas internacionais, o que é algo muito bom. E tem o poder de influenciar os seus vizinhos, e, com esse novo papel, uma responsabilidade de não apenas lutar por direitos humanos internacionalmente, mas o de promover direitos humanos internacionalmente.''

Guantánamo

A pressão pela inclusão de temas que não costumavam constar da agenda bilateral dos dois países se deve, de acordo com o pesquisador, ''às mudanças do mundo em que vivemos, um mundo multipolar, no qual o Brasil é um dos países-chave do mundo e uma voz com credibilidade no palco internacional. O Brasil está bem posicionado e tem uma certa responsabilidade de levantar estes temas, claro que de forma diplomática, com seus parceiros''.

Em relação à prisão de Guantánamo, na base militar que os Estados Unidos mantêm em Cuba, onde estão detidos suspeitos de envolvimento de atividades terroristas contra forças americanas, a organização ''clama à presidente Dilma Rousseff que levante esse tema, a fim de reforçar os esforços que visam concluir esse capítulo obscuro da história americana''.

A Anistia Internacional argumenta que muitos dos detidos em Guantánamo estão atrás das grades sem terem sido submetidos a julgamento justos ou sujeitos a acusações formais.

''Sabemos que essas discussões (entre Dilma e Obama) vão girar em torno de uma série de temas comerciais, mas não queremos que elas negligenciem os temas de direitos humanos.''

Agenda de Obama

A entidade também espera que o líder americano discuta com Dilma temas relativos a direitos humanos no Brasil, entre eles a situação de segurança pública no país, direitos de populações indígenas e abusos decorrentes de grandes projetos do governo.

''Quanto à segurança pública, avanços estão sendo feitos no Rio de Janeiro e também em Recife e São Paulo, mas somente no ano passado, mil pessoas foram mortas pelas polícias do Rio e de São Paulo. Também recebemos relatos constantes de execuções extrajudiciais'', afirma Wilcken.

O pesquisador afirma que seria crucial ainda debater ''os direitos indígenas à terra, em especial no Mato Grosso do Sul, onde os Guarani-Cayowá vêm lutando há tempos para ter seus direitos reconhecidos, sofrendo com intimidações e assassinatos''.

Um terceiro tópico, comenta Wilcken, é fruto do rápido desenvolvimento do país. ''O Brasil está realizando uma série de grandes projetos e temos recebido denúncias de pessoas forçadas a deixar suas terras, por conta de projetos de ponta como a usina Belo Monte. Reconhecemos a importância do desenvolvimento brasileiro, mas ele não pode ser feito à custa de direitos humanos básicos.''

A Anistia Internacional também vê temas ligados aos direitos humanos nos quais os dois países poderiam convergir e, assim, aproveitar para estreitar os seus laços.

Um deles é em relação a supostos abusos cometidos pelo governo do Irã. Dilma, no entender da Anistia Internacional, já teria sinalizado uma linha um pouco distinta da de seu antecessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em relação ao alinhamento do Brasil com o país governado por Mahmoud Ahmadinejad.

''No passado, criticamos o governo brasileiro em relação ao tema do Irã e sentimos que é muito importante construir solidariedade internacional, e possivelmente o Irã seria uma opção, assim como a China para uma discussão produtiva.''BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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