Anistia acusa Brasil de omissão no massacre de Darfur

Organizações não-governamentais (ONGs) acusam o governo brasileiro de ditar sua posição sobre direitos humanos na Organização das Nações Unidas (ONU) com base em interesses de sua política externa e não pensando nas vítimas de violações, principalmente na África. Nesta terça-feira, o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, vai discutir os massacres de Darfur, no Sudão. O comportamento do Brasil será acompanhado atentamente por ativistas e pelos demais governos. Isso porque o Itamaraty surpreendeu ao hesitar em dar apoio à resolução preparada pelos países ocidentais, que pede que as autoridades do governo do Sudão sejam responsabilizadas pelo massacre. As ONGs estimam que desde 2003 pelo menos 200 mil morreram no conflito armado entre o governo do Sudão e os grupos rebeldes em Darfur. Além disso, 2 milhões de civis foram obrigados a deixar suas casas e milícias estariam sendo armadas pelo governo. Não por acaso, a ONU classifica a situação como ´crime contra a humanidade´ e pede que as autoridades do Sudão sejam investigadas. O governo do Sudão, que não esconde a satisfação com o governo brasileiro, afirma que os mortos chegam a apenas 9 mil. A proposta dos países ocidentais, que é liderada pela Europa e conta com o apoio de Argentina e Paraguai, prevê a visita de um representante da ONU à região e será votada hoje pelo conselho. "Ficamos chocados com a posição brasileira", afirmou Mariette Grange, diretora da Human Rights Watch. Ativistas querem que o Itamaraty - empenhado em aproximar o Brasil de países da África - não esqueça a defesa dos direitos humanos. Um grupo de 18 ONGs, liderado pela Conectas, enviou carta de apelo ao governo brasileiro ontem, pedindo que vote a favor da proposta. Brasília já adotara atitude semelhante, ao não endossar outra proposta européia sobre o tema há duas semanas, preferindo se abster. "Isso é o mesmo que apoiar a impunidade", criticou Mariette Grange. Para Osman Hummaida, diretor da Organização do Sudão Contra a Tortura, o Brasil está certo em tentar formular uma política externa alternativa aos EUA ou à Europa e de não votar na ONU segundo a orientação de países ricos. "Mas essa diplomacia alternativa não pode valer para todos os setores. Nos direitos humanos, está tendo resultados negativos para as vítimas e o Brasil precisa considerar isso", acusou Hummaida. A Anistia Internacional na ONU ironizou a posição do Brasil. "O País aprendeu rápido a ser uma potência e a colocar interesses próprios acima da defesa de direitos humanos." Em carta obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo e enviada há dez dias pelo Itamaraty às ONGs, o governo se limitou a dizer que a situação em Darfur era ´complexa´ e estava preocupado com a polarização entre os países do norte e do sul na ONU. O Brasil também teria optado por não apoiar a resolução européia para "preservar espaço diplomático de interlocução com os africanos, adotando atitude construtiva". Na carta enviada pela Conectas, as ONGs afirmam que "uma postura construtiva e a preservação do espaço diplomático de interlocução com os africanos não podem deixar de lado os imperativos dos direitos humanos". O Brasil ainda tentava atuar na segunda como mediador entre os países ocidentais e os africanos. O Sudão, apoiado pelos árabes e africanos, aceitava uma resolução que enviasse representantes da comunidade internacional, mas queria também que governos fizessem parte da missão. Os europeus se recusam a aceitar essa proposta. Para o Brasil, uma opção seria o envio de representante da ONU, além de uma personalidade política relevante do cenário internacional. Para as ONGs, a proposta brasileira não é suficiente. O Itamaraty afirmou na segunda que não comentaria o assunto porque a posição brasileira ainda está sendo discutida e pode ser mudada.

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