Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

Angústia marca última viagem de Dilma antes de votação do impeachment

Presidente soube que Renan Calheiros ignoraria decisão do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), pouco antes de embarcar para Goiânia

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2016 | 21h04

GOIÂNIA - Diante do olhar de militantes angustiados e tensos, a presidente Dilma Rousseff teve de enfrentar nesta segunda-feira, 9, um total de 70 degraus de descida e subida de uma escadaria que não estava no roteiro de sua viagem a Goiânia, que pode ser uma das últimas de seu governo. A festa de inauguração do novo terminal de passageiros do aeroporto Santa Genoveva, uma obra de uma década, foi marcada pela paralisação das duas escadas rolantes, por gritos de "não vai ter golpe" e pelo clima de tristeza por parte da plateia, que estava longe de mostrar a animação e a descontração dos eventos do PT nos 13 anos de poder pelas capitais e grotões.

Dilma teve um dia de agitação e ansiedade. Foi apenas no final da tarde, momentos antes de embarcar para Goiânia, que ela soube que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), decidiu ignorar a decisão do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), de suspender o processo do impeachment.

Ao desembarcar no aeroporto, ela teve que esperar pelo menos 20 minutos até os funcionários do terminal encostar o finger no avião presidencial. Depois, como as duas escadas rolantes estavam paradas, a presidente desceu 35 degraus de uma escada convencional para chegar ao térreo, onde estava a multidão reunida pelo diretório do PT em Goiânia e pelo prefeito petista da cidade, Paulo Garcia.

Ao longo de seus cinco anos no poder, Dilma sempre demonstrou irritação quando a burocracia ou a política a obrigavam a inaugurar obras inacabadas, uma marca de seu antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que viajava até para dar a "primeira" gota de solda. Nesta segunda, Dilma manteve o costume de tentar mostrar uma imagem de "gerente", resistindo a assumir a figura da "política". Ela gastou boa parte de seu discurso para ressaltar o esforço pela conclusão de aeroportos e ferrovias.

Apoio. Depois, a presidente praticamente repetiu os seus últimos discursos, questionando a legitimidade do processo de seu afastamento, citou as palavras "golpe", "golpistas" e "usurpadores" e lembrou que ninguém encontrou indícios de enriquecimento ilícito de sua parte.

Em meio a um discurso quase automático da presidente, os simpatizantes e militantes gritavam o bordão "Dilma, guerreira, da pátria brasileira" ou frases contra o impeachment. Os gritos e aplausos faziam eco no espaço fechado do aeroporto. Nada que lembrava, porém, as concorridas viagens presidenciais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dela própria, no primeiro mandato.

O prefeito Paulo Garcia colaborou para tornar mais angustiante o evento ao fazer um paralelo entre o drama de ter perdido a mãe recentemente com a situação vivida pela presidente. "A senhora deixa um legado", disse Garcia, num tom de despedida. Ele foi vaiado quando informou a Dilma que o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, destacava o "republicanismo" dela.

Obra. O novo terminal de Goiânia, que pelas previsões mais otimistas será aberto no dia 21, pode servir como uma metáfora da era Lula e Dilma marcada por momentos de euforia econômica e também de turbulência política. A licitação da obra saiu em 2004, no segundo ano de mandato de Lula. Em 2006, o Tribunal de Contas da União (TCU) interrompeu as obras por suspeitas de superfaturamento. Só em 2013 a obra voltou a ser tocada. O gasto já chega a R$ 467,4 milhões. É um valor elevado para um aeroporto que está praticamente dentro da cidade e que pode não comportar a demanda de aumento de passageiros e cargas.

O Santa Genoveva também caiu na malha da força tarefa da Operação Lava Jato. Neste caso, não caiu peixe do PT na rede. Procuradores dizem ter encontrado indícios de que Ricardo Ferraz, ex-diretor de Infraestrutura da Odebrecht, pagou propina de R$ 1 milhão para o policial militar Sérgio Rodrigues de Souza Vaz, ligado à Agência Goiana de Transportes e Obras. A Agetop é uma autarquia criada pelo governador tucano Marconi Perillo. Vaz foi assassinado em janeiro deste ano num suposto assalto a uma pamonharia de Anápolis. A Lava Jato, no entanto, não alterou o andamento da obra, que estava na reta final.

Presença. Marconi Perillo evitou comparecer na inauguração. Assessores disseram que ele temia hostilidade por parte de petistas. Os militantes, porém, não compareceram em grande número. Goiânia vive a polarização política em suas esferas de poder. O governador, nos últimos anos, tem usado termos duros para atacar Lula e outras figuras do PT. Embora a capital goiana seja administrada por um petista, o partido da presidente foi ferido mortalmente no Estado ainda em 2005, quando o Santa Genoveva era apenas um projeto no papel. O ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, nome importante do partido em Goiás, caiu no escândalo do mensalão, considerado o maior caso de corrupção do período governado pelo PT antes do esquema de desvios da Petrobrás ser revelado pela Lava Jato.

Quando um grupo começou a gritar palavras de ordem contra a TV Globo, que entrava no ar naquele momento, Dilma pediu silêncio porque precisava "contar sua história" e riu. Foi um dos poucos momento de bom humor durante a rápida viagem. Quando a cerimônia estava quase no fim, técnicos conseguiram colocar em operação as duas escadas rolantes. Mas, justamente, a escada escolhida pela presidente parou de funcionar. Dilma, então teve de subir outros 35 degraus para chegar ao avião que a levaria de volta a Brasília.

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