Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

André Singer diz que Dilma adotou medidas do PSDB e questiona críticas de tucanos

'No fundo a presidente adotou, em boa medida, o programa do adversário Aécio Neves, então não entendo o que o PSDB gostaria que não está sendo feito' afirmou o cientista político e ex-porta-voz do governo Lula em conferência com executivos

Ana Fernandes, O Estado de S. Paulo

17 de agosto de 2015 | 18h13

São Paulo - André Singer, cientista político e ex-porta-voz do governo Lula, disse na tarde desta segunda-feira, 17, não compreender as falas de lideranças tucanas dando apoio ao impeachment ou a uma possível renúncia da presidente Dilma Rousseff, em especial a manifestação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Facebook, que classificou uma eventual renúncia de Dilma como "gesto de grandeza".

Em teleconferência com analistas de mercado promovida pela GO Associados, Singer considerou as manifestações tucanas de "complicadas", levando em conta também as falas dos senadores Aloysio Nunes (SP) e Aécio Neves (MG) em favor do impedimento da presidente.

"A presidente tem dito diversas vezes que não vai renunciar, o que a meu ver é correto, ela tem mandato e o mandato dela é legítimo", disse ao argumentar que atualmente não há embasamento legal para um processo de impeachment. Para ele, qualquer movimentação de afastamento de Dilma neste momento seria um "golpe branco"

"Não gostaria que o governo tivesse adotado esse ajuste, mas o fato é que ela (Dilma) está corrigindo o (rumo econômico do) País. O País não está numa situação nem de longe de desgoverno, não vejo isso de forma alguma. Não entendo essa posição da renúncia (de FHC). Como se o Brasil precisasse de uma destituição do governo para ter um programa alternativo. No fundo a presidente adotou, em boa medida, o programa do adversário Aécio Neves, então não entendo o que o PSDB gostaria que não está sendo feito", completou Singer.

Além do post de FHC, em que o ex-presidente recomendou a Dilma renunciar ou "admitir os erros" para recuperar a governabilidade, houve manifestações de outros tucanos. Aloysio Nunes disse nesta tarde que, se houver abertura do processo de impeachment, o PSDB apoiará, mas que ainda falta o PMDB desembarcar do governo para os tucanos adotarem abertamente o discurso do impedimento.

"O Brasil despertou. Chega de corrupção. Meu partido é o Brasil", disse Aécio, neste domingo, em carro de som no protesto realizado em Belo Horizonte. Singer admite que os movimentos contra Dilma têm relevância e dão sinais de que vão continuar, mas destaca que eles não têm uma demanda clara.

"As manifestações não apresentam demandas, se concentrando muito nas palavras de ordem de 'fora Dilma', 'fora PT'. No máximo podemos ver demandas na linha de combate à corrupção. A questão é que o combate à corrupção está sendo feito, e da forma mais radical que o Brasil já assistiu", disse Singer em relação à Operação Lava Jato. Para o cientista político, a operação tem independência, o que é muito positivo.

Manifestações. Singer avaliou que assim como o resultado numérico intermediário entre as passeatas de março e abril, as manifestações deste 16 de agosto também têm um saldo intermediário em termos de efeito político. 

"É um movimento que se consolidou na sociedade brasileira, mais definido em favor do impeachment. Por outro lado, não é um movimento avassalador. Ganhou abrangência, se espalhou por mais cidades, mas não vem crescendo numa velocidade que aponte para um movimento que vá de fato levar a um desfecho de impedimento da presidente - não que isso esteja ainda completamente afastado do cenário também", ponderou.

Com essa avaliação, Singer diz ver dois cenários possíveis. O primeiro em que a presidente, com base na Agenda Brasil proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, saia do isolamento político e consiga consolidar uma segurança de seu mandato. O segundo é do retorno da instabilidade política. 

Para Singer, é difícil prever o desfecho, em razão de diversos fatores de instabilidade no horizonte. O primeiro desses fatores de desestabilização é a própria Lava Jato, com desfechos imprevisíveis por causa da independência do Ministério Público e do Judiciário. Além disso, Singer destaca os processos contra o governo no Tribunal de Contas da União (TCU), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e a possibilidade do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), dar prosseguimento a algum pedido de abertura do processo de impeachment. Para o cientista político, Cunha está neste momento isolado, mas pode surpreender com seu poder de influência sobre os deputados.

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