Rodolfo Buhrer/Reuters
Rodolfo Buhrer/Reuters

Analistas avaliam cenário político com Lula solto: 'Radicalização pode aumentar'

'Estado' ouviu cientistas políticos para entender o que muda na conjuntura política com a soltura do ex-presidente, que ficou preso por 580 dias

Paulo Beraldo, Luísa Laval e Sandy Oliveira, especiais para O Estado, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2019 | 19h19

Analistas ouvidos pelo Estado nesta sexta-feira, 8, avaliam que a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após 580 dias de prisão, pode reforçar o cenário de polarização da política e fortalecer a argumentação de apoiadores mais radicais do presidente Jair Bolsonaro. Outros, no entanto, destacam que Lula pode aglutinar novamente a esquerda fragmentada. O petista estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde abril de 2018, condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex

Para o filósofo Luiz Bueno, da FAAP, a soltura de Lula reforça o discurso dos apoiadores mais radicais de Bolsonaro, já que Lula seria o principal adversário a ser combatido. "Qualquer movimento do Lula vai ser observado e usado por eles para tentar manter a radicalização da campanha eleitoral. Então, acredito que será favorável para a direita radical", disse. 

Avaliação semelhante tem o cientista político do Fundação Getúlio Vargas (FGV), Cláudio Couto. "O presidente se nutre muito do sentimento antipetista, e nesse discurso de uma linha dura contra a corrupção e a impunidade, e a ideia da prisão da segunda instância entra nesse ponto.” 

Lula deixou a prisão após o Supremo Tribunal Federal (STF) proibir, na quinta-feira, por 6 votos a 5, a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância. 

Radicalização tende a aumentar

Segundo Luiz Bueno, Lula enfrentará um momento diferente na esquerda, com mais dificuldades de se mobilizar. "Muitos não têm mais o PT como a linha de frente da esquerda." Na avaliação de Bueno, um contato mais póximo do petista pode reacender o ânimo da militância petista. 

Cláudio Couto, por sua vez, acredita que Lula pode se tornar um “grande articulador da oposição, sobretudo no PT e em suas lideranças”. Ele afirma ainda que o ex-presidente deve voltar com posição mais marcada para o debate político. 

“Se, por um lado, ele pode ser uma liderança, por outro, imagino que possa sair muito mais radicalizado do que efetivamente já era. O Lula nunca foi uma liderança política radical, mas ele tem dito que ele vai sair mais à esquerda do que era”, afirma o professor, que diz ainda não ser possível prever como será essa atuação.

Sobre a possível influência da saída de Lula da prisão nas eleições municipais de 2020, Couto acredita que ainda é cedo para avaliar possíveis influências, e que é necessário aguardar os próximos movimentos do petista. 

Discurso

Para o professor Rodrigo Prando, do Mackenzie, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro devem ficar "inconformados" com a nova situação, mas há dois caminhos. "Pode fortalecer o discurso dele, que nunca cessou, porque o Lula, mesmo inelegível, estaria solto e poderia fazer política partidária", afirma o professor. "Mas a outra face da moeda é que o Lula pode ser uma força política e agregar a esquerda, o que até o momento não aconteceu", disse Prando, sugerindo que partidos de oposição que estavam distantes do PT podem voltar a se aproximar. 

"Como a sociedade está muito polarizada, vai depender de como o Lula vai construir o discurso. Ele pode radicalizar ou pode moderar e conseguir ir mais ao centro. Perde força um pouquinho a figura do Ciro Gomes e até mesmo a Marina Silva", avaliou. 

Primeiro discurso 

Ao sair da prisão em Curitiba, Lula discursou para apoiadores, acusando os “lados podres” de instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça pela prisão. “Eles não prenderam um homem, tentaram matar uma ideia”, afirmou o ex-presidente. 

Lula disse que vai “continuar lutando para melhorar a vida do povo brasileiro, que está uma desgraça”, afirmando que, desde a sua prisão, a situação dos pobres e dos desempregados piorou. Ao se despedir, anunciou que vai se reunir neste sábado, 9, no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo (SP), para depois percorrer o País.

"O povo está passando mais fome, está desempregado, não tem mais trabalho com carteira assinada, o povo tá trabalhando de Uber, de bicicleta para entregar pizza, está trabalhando sem o menor respeito."'

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