ANÁLISE: Vitórias quase sempre como vitórias de pirro

Mesmo que as condições políticas não se deteriorem ainda mais – o que é pouco provável –, o presidente dificilmente retomará a iniciativa: passará os dias sorrindo amarelo para as lentas das câmeras e para empresários

Carlos Melo* , O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2017 | 05h00

O tempo político no Brasil deixou de ser instável dezenas de tempestades atrás; não é atípico o que não se altera: a volatilidade tornou-se uma constante. Dizem que turbulência não derruba avião, mas a qualidade da tripulação, sim. O presidente Michel Temer e seus companheiros de voo dão generosas mostras de que compõem uma tripulação sofrível, incapaz de tornar, se não à dinâmica reformista, pelo menos a condições mais convincentes de governabilidade.

Não apenas os áudios da JBS afetaram o governo. Também a incapacidade em dar respostas críveis aos contratempos e afastar-se das crises fez ruir a imagem de raposas sagazes que os peemedebistas ostentaram como opção à debilidade mirim de Dilma. Pronunciamentos do presidente acrescentam algo apenas aos náufragos que se agarram às boias da indulgência, mais preocupados com resultados imediatos da economia do que com a qualidade e a longevidade da democracia.

Medidas tomadas no Ministério da Justiça revelaram que a estratégia não será curar a doença, superar a febre, mas afetar o funcionamento do termômetro. A resistência a qualquer custo transformará o que ainda restar do governo em um governo “delongatório”, na ilusão de que parar o tempo é suficiente para evitar o castigo. Mesmo que as condições políticas não se deteriorem ainda mais – o que é pouco provável –, o presidente dificilmente retomará a iniciativa: passará os dias sorrindo amarelo para as lentas das câmeras e para empresários.

Por sorte do vazio de alternativas e de artimanhas jurídico-políticas que se reinventam a cada dia, Temer pode até concluir o mandato; e poderá até se vangloriar de algum feito, no Congresso. Não é improvável que alguma reforma se faça pela simples inevitabilidade de mudanças forjadas, antes, pela necessidade econômica do que pela condução governista. Se isso ocorrer, o presidente, naturalmente, cantará vitória, ressaltando méritos e qualidades políticas que não tem. Suas vitórias serão quase sempre vitórias de pirro.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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