Análise: Uma eleição sem derrotas e nem derrotados

À exceção do já previsto desastre petista, foi tudo meio morno. Portanto, de baixa intensidade também o impacto sobre os preparativos para 2018

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2016 | 05h00

À exceção do já previsto desastre petista, não houve derrotas nem derrotados fragorosos na eleição deste domingo. Tampouco ocorreram vitórias ou se registraram vitoriosos absolutos na escolha de prefeitos e vereadores nas capitais do País. Foi tudo meio morno. Portanto, de baixa intensidade também o impacto sobre os preparativos para 2018.

É tradição se tomar o desempenho de cada partido no pleito municipal como uma espécie de ensaio para a disputa presidencial de dali a dois anos, embora tal versão quase nunca corresponda aos fatos. Desta vez podemos dispensar o “quase” e assumir na totalidade a negativa. 

Não haverá correspondência alguma entre as duas eleições, notadamente devido à peculiaridade de ambas. A de agora, realizada com regras até então inéditas, em ambiente de crises, escândalos, prisões, delações, reações algo desesperadas e um altíssimo grau de rejeição aos políticos. O paradoxo é que o interesse pela política cresceu na proporção inversa.

O sumiço dos caciques partidários das campanhas deu-se justamente porque não há quem possa dizer que esteja bem na fotografia do momento. Fernando Henrique e Aécio Neves fizeram aparições fortuitas em prol do candidato do PSDB a prefeito de São Paulo, João Dória, e ainda assim só depois de ele dar sinais de saúde eleitoral. 

O ex-presidente Lula bem que tentou. Apareceu aqui e ali, no Nordeste e em São Paulo, para ter o desgosto de ver candidatos nordestinos dispensando sua presença e Fernando Haddad desistindo de apresentá-lo no horário eleitoral depois de as pesquisas qualitativas o apontarem como fator de perda de votos.

O presidente Michel Temer não deu o ar da graça. Verdade que ele havia anunciado distância a fim de não provocar atritos entre partidos dos quais depende de votos no Congresso. Mas é fato também que não se viu ninguém no PMDB e área de influência a clamar por sua presença. 

Por esses e outros motivos, não se pode enxergar em 2016 um ensaio para 2018, quando o esperado e o inesperado cuidarão de proporcionar cada qual a respectiva surpresa. Nada está garantido e a obra do futuro com desfecho em aberto. Mesmo o desempenho surpreendente de João Dória em São Paulo não representa um passaporte para o governador Geraldo Alckmin na disputa presidencial. Entre outros motivos porque nossa história recente demonstra que criaturas nem sempre fazem bem aos criadores. 

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