Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Análise: Um presidente sem partido?

Professor do Mackenzie afirma que presidente quer um partido que não tenha 'dono'

Rodrigo Augusto Prando*, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 07h00

Ao que tudo indica, aproxima-se o desfecho da crise entre o presidente Bolsonaro e o seu atual partido, o PSL

Há tempos, as condições de temperatura e pressão não são normais: Bolsonaro e os seus querem dominar a legenda, bem como os recursos do fundo partidário. E o presidente do partido, Luciano Bivar, não quer perder o poder e nem o controle dos cerca de R$ 1 bilhão de dinheiro público até 2022. A relação entre bolsonaristas e bivaristas foi marcada por atritos, insultos e manobras políticas de cada lado.

Saindo do PSL, Bolsonaro pode fundar outro partido ou ser acolhido em outra legenda, sem risco de perder o seu mandato, conforme o entendimento da Justiça Eleitoral para os cargos majoritários (prefeito, governador e presidente). Contudo, o mesmo não ocorrerá com deputados – cuja eleição é proporcional – e, sem justa causa, podem perder seu mandato.

Doravante, as manobras políticas e jurídicas pulularão no cenário em tela. O PSL deixou de ser nanico e cresceu quantitativamente (eleitos e recursos) a reboque do bolsonarismo, todavia, o partido não teve um salto qualitativo, com falhas na articulação política em prol do governo e muitas personalidades que deram um tom personalista, amador e até burlesco na ação política parlamentar.

Mesmo assim, o PSL, junto com o Novo, foi o partido mais fiel ao governo. Bolsonaro, sabemos, elegeu um estilo confrontador que mantém os atores políticos, a sociedade e as instituições em constante tensão. Como será o governo sem o PSL? Provavelmente, não muito diferente deste primeiro ano: avesso à construção de uma base de apoio e jogando, segundo seu entendimento, todos que não são bolsonaristas raiz na vala do que chamam de “velha política”. E, convenhamos, Bolsonaro nunca foi fiel à ideologia partidária ou mesmo aos partidos políticos.

Afirmou-se que o presidente quer um partido que não tenha “dono”. Na verdade, ele quer ser dono de um partido, como outros conhecidos caciques da política brasileira. 

*Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutor em Sociologia pela Unesp.

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