ANÁLISE: Tão cedo, a política não sairá do calvário

As crises se entrelaçam: a política se escoraria na economia, mas a piora econômica agrava a crise política e a economia depende do bom funcionamento da política

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2016 | 05h00

A despeito dos ares de esperança comuns às festas de fim de ano, é nula a chance de o País superar rapidamente a crise. Melhora macroeconômica ajuda, não basta: o ajuste necessita de reformas e avanços que, por sua vez, requerem atores políticos qualificados, no momento inexistentes. As crises se entrelaçam: a política se escoraria na economia, mas a piora econômica agrava a crise política; a economia depende do bom funcionamento da política. As duas crises se abraçam, brincam de ciranda no círculo vicioso.

Tão cedo, o sistema político não sairá do calvário: a dinâmica em que aprendeu a funcionar se esgotou, mas seu padrão mental é resistente, embora ultrapassado. Esse presidencialismo de coalizão – sem programa e escrúpulos – dilapidou o Estado e as condições fiscais já não permitem “dar para receber”. O governo ainda logra vitórias porque libera verbas a rodo e redistribui o espólio do finado PT; contudo, a voracidade é infinita, enquanto os recursos não. Para que Michel Temer pudesse tirar o País do buraco seria necessário parar de cavar. 

Difícil contornar um sistema em pânico que deu em rua sem saída, diante de opinião pública com porretes na mão. A Lava Jato não será contida no Parlamento. Se isso ocorreu na Operação Mãos Limpas, no Brasil do presente as condições são diferentes: mais bem preparados, Ministério Público e parte da Justiça aprenderam as manhas do exemplo europeu. A sociedade em rede, mais informada e conectada, guarda colossais diferenças com a Itália dos anos 1990. Não há acordo possível quando uns – MP e Justiça – estão tão em alta e outros – Congresso e Executivo – estão em baixa. Só rendição.

O País vive a transição: a velha ponte ruiu, conquanto nova passarela não foi planejada. É preciso chegar à outra margem do rio, mas sem capacidade de comunicação, persuasão e articulação, o País balança na “pinguela” que possui. De positivo, a consciência de que do labirinto não há saída fácil: som e fúria significam nada. Após o terremoto, deve-se enterrar os mortos e cuidar dos vivos – tomando cuidado com os muito vivos! 

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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