Miguel SCHINCARIOL / AFP
Miguel SCHINCARIOL / AFP

Análise: Supremo aumentará combustão ao julgar segunda instância

STF terá de deliberar sobre prisão em segundo grau – e ao rever a pena de Lula, STJ bota lenha na tumultuada fogueira da política brasileira

Carlos Melo *, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2019 | 05h00

Dado o personagem, a decisão do Superior Tribunal de Justiça agitará a opinião pública. Mas é bom lembrar que a Justiça que condenou e prendeu o ex-presidente Lula é a mesma que agora revê sua pena. Argumentos que no passado defenderam a prisão deveriam servir para revalidar a soberania da decisão judicial.

Contudo, o STJ de fato bota lenha na tumultuada fogueira da política brasileira. E mais combustão pode haver quando o STF deliberar sobre a “segunda instância”. Tudo ao seu tempo. Desde já ficam especulações sobre os efeitos políticos da decisão. Lula terá papel determinante nos destinos da política brasileira?

Ainda que vetos a manifestações políticas possam lhe ser impostos, é fato que Lula estará melhor posicionado para acompanhar a conjuntura e melhor condição terá de diálogo com companheiros e eleitores. Obviamente, para si e para seu partido, é melhor tê-lo por perto do que trancafiado em Curitiba. Mas, sob muitos aspectos, é necessário não esquecer que o mundo de Lula desvaneceu.

Dos 83% de aprovação ao deixar o governo em 2010 à mais controversa figura da história política do País, Lula já não possui os recursos do passado. Sua imagem foi abalada e estruturalmente foram atingidos, por mudanças na economia e na sociedade, os sindicatos e movimentos sociais. Seus aparelhos perderam vigor. O próprio PT é sombra do que foi, com terrível escassez de quadros, lideranças e perda de capilaridade social.

A legenda se burocratizou e envelheceu; carece de visão e discurso de futuro; sua bancada é menor e menos experiente. As Caravanas da Cidadania, de sucesso no passado, nem contarão com o ex-presidente nem encontrarão o mesmo ambiente de outrora, transformado também pela ação dos governos petistas.

Objetivamente, o que mais pode colaborar para o fortalecimento político de Lula não será sua prisão atenuada, seus aliados ou a sociedade ao seu redor, mas o governo Bolsonaro: nos erros e confusões cotidianos, na falta de projeto e direção, na descoordenação, nas trapalhadas ideológicas, na incapacidade de formar maioria e na atávica tendência de fazer oposição a si mesmo. A força não estará em Lula, mas na fragilidade de seu maior adversário.

* CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER 

 

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