ANÁLISE: Será uma maldição?

Sete meses depois do impeachment de Dilma Rousseff, uma nova dimensão da crise se manifesta e, de novo, ameaça com a possibilidade de outra troca de governo

José Álvaro Moisés*, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2017 | 23h49

Às vezes parece que é uma maldição. O Brasil não consegue sair da crise. Sete meses depois do impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff, cujos traumas ainda não estão inteiramente superados, uma nova dimensão da crise se manifesta e, de novo, ameaça com a possibilidade de outra troca de governo. Desta vez, além de paralisar um conjunto de decisões que parece estar apontando para o rumo certo, pode gerar um novo ciclo de instabilidade política – tudo que o País não precisa na tentativa de arrumar a casa, retomar o crescimento econômico e gerar empregos.

Ah, mas não é bem assim porque, logo na primeira sessão do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em torno da profusão de provas sobre o abuso de poder político e econômico supostamente praticado pela chapa Dilma-Temer em 2014, o tribunal deu marcha à ré, chamou novas testemunhas e deu mais prazo para as alegações finais da defesa. Nas palavras do ministro Herman Benjamin, uma verdadeira procrastinação; ou, dito de outro modo, um novo adiamento para fazer cumprir a lei.

Quem ganha e quem perde? O presidente Michel Temer e seus auxiliares mais próximos respiraram aliviados, terão mais tempo para tocar a aprovação das reformas no Congresso e rezam para que os sinais de recuperação apareçam logo, antes da devastação da Operação Lava Jato. Mas o tempo é um bem escasso e a espada de Dâmocles permanece: um governo de legitimidade contestada continua pressionado por uma ameaça judicial que não é apenas incômoda, sugere que o governo do dia pode ter compartilhado malfeitos com o defenestrado.

O quadro também aponta uma ambiguidade da cultura política do País. Por um lado, o processo no TSE mostra que o direito de a oposição recorrer, quando vê fraudada a igualdade da competição eleitoral, tem acolhida na Justiça; mas, por outro, a morosidade e as conveniências do processo são de tal ordem que frustram os sentimentos democráticos dos cidadãos eleitores: quase três anos depois das eleições, eles não têm certeza se elas foram legítimas e, se não, quem são os responsáveis.

*PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA NA USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.