ANÁLISE: Sem acordo entre tucanos, dano pode ser irreparável

Quem acompanhou o esforço empreendido por Alckmin para transformar Doria em prefeito de São Paulo, jamais imaginaria que os dois protagonizariam uma mesma disputa tão rapidamente

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 05h00

Traçar cenário político tem sido uma tarefa desafiadora. O fator de instabilidade não tem sido apenas a Lava Jato, mas também tem a ver com os projetos de poder que se associam às oportunidades conjunturais que o vazio decorrente da deterioração do ambiente político oferece. É nesse contexto que o embate entre Geraldo Alckmin e João Doria pela vaga de candidato a presidente da República pelo PSDB se insere.

Quem acompanhou o esforço empreendido por Alckmin para transformar Doria em prefeito de São Paulo, jamais imaginaria que os dois protagonizariam uma mesma disputa tão rapidamente. O repentino sucesso de sua gestão, amparado em uma de suas principais habilidades individuais – a de comunicador – além da nacionalização de sua imagem pessoal, que ocorreu apoiado em diversas medidas, dentre elas a propaganda indireta de ações da Prefeitura durante jogos da seleção brasileira paga por empresários-amigos, fez circular o nome de Doria como presidenciável. Assim, ele queimou a largada, assustou setores do PSDB com sua ambição precoce e se colocou como expressão máxima do antipetismo, passando a percorrer o País para receber homenagens que logo foram transformadas em eventos de pré-campanha.

A retórica mais recente assumida por João Doria não aponta para um desfecho amigável. Questionado sobre suas pretensões presidenciais ele afirma que o futuro a Deus pertence, fala que o povo é quem definirá, recomenda que o PSDB escolha segundo a posição nas pesquisas eleitorais e não nega a possibilidade de mudar de partido.

Com a possibilidade de um acordo cada vez mais remota, salvo algum fato externo à vontade de ambos, o dano desse conflito de poder para o PSDB pode ser irreparável. Para Doria, sair do páreo soaria como derrota pessoal, algo que não combina com o seu perfil. Alckmin, que já enfrentou tucanos de grosso calibre para impor o nome de Doria à Prefeitura, certamente não abrirá mão justamente para alguém que ele mesmo deu o impulso decisivo para se transformar em liderança política que agora assume amplitude nacional.

*PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA FGV-SP.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.