ANÁLISE-Saída de Marina encerra trégua governo-ambientalistas

A deferência que osambientalistas tinham com o governo pela presença de MarinaSilva à frente do Ministério do Meio Ambiente desaparece comsua saída. A mensagem é clara: o governo abriu mão da agendaambiental em nome do desenvolvimento a qualquer custo. As tensões entre os defensores ambientais e o governotendem a recrudescer, agravadas ainda pela entrega da gestão doPlano Amazônia Sustentável (PAS) ao ministro de AssuntosEstratégicos, Mangabeira Unger. "O governo vai ficar mais exposto, pois poucos brasileirostem o carisma da Marina. O governo já teria sido muito maiscriticado se não fosse pelo patrimônio de credibilidade que aMarina tem", afirma o secretário-geral do Fundo Brasileiro paraBiodiversidade (Funbio), Pedro Leitão. Por seu histórico na questão ambiental e sua penetração nomovimento social, Marina levava ambientalistas de diferentesmatizes a serem menos hostis ao governo, comportamento quetende a se desfazer com a sua renúncia. Mais importante, para os ambientalistas, Marina era o pontode equilíbrio entre uma visão de desenvolvimento sustentável euma de desenvolvimento puramente econômico, cuja disputa seinclinaria agora favoravelmente à segunda posição. Segundo Leitão, os ambientalistas não necessariamenteestavam de acordo com a agenda de Marina Silva e com afidelidade dela ao governo Lula. "Muita gente boa achava que ela já deveria ter saído hámuito tempo. Pessoalmente, acho que ela foi correta em tentarlevar até o fim uma bandeira de acomodação entre essas agendas(ambientalista e desenvolvimentista)", disse. Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos emSustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) comenta quenão é de hoje que se percebe o caráter "desenvolvimentista aqualquer preço" do governo. "O governo fica mais autêntico agora, pois estava seescondendo atrás de uma roupagem verde que não tem. Não temmais o escudo que a Marina imprimia, com todo o reconhecimentopor seu trabalho", avalia. "Se pudesse apostar, diria que o governo vai ser maisatacado. A saída dela vai abrir uma porteira, acho que operíodo de trégua acabou", acrescentou. Para o diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado,o governo abdicou da agenda ambiental e perdeu o seu maiorícone, com a saída de Marina Silva. "Ela vai embora e leva a legitimidade do ministério. Nãoimporta quem vai entrar, porque vai carimbar a agenda dodesenvolvimento a qualquer custo do governo, se tentarressuscitar a sustentabilidade, será tirado." PREOCUPAÇÃO COM UNGER O vice-presidente para a América do Sul da ConservaçãoInternacional, José Maria Cardoso da Silva, acha que o maiorprejuízo da saída de Marina é o risco de se perder a estruturagovernamental que a ex-ministra montou com pessoal qualificadopara gerir a política ambiental no país. "Até então, o staff era bastante limitado e posições-chaveeram ocupadas por consultores. Ela conseguiu abrir concursos noministério e no Ibama para avançar na construção de estruturasgovernamentais mais fortes. Isso não aparece muito, mas fazdiferença grande para quem esta no dia-a-dia da ação ambientalno Brasil", destacou. O que assusta mais os ambientalistas é a presença deMangabeira Unger no cenário de políticas para a Amazônia.Nomeado gestor do PAS, o ministro é considerado neófito edespreparado. "O que a gente ouve do Unger é assustador. Ele parecedesconhecer completamente toda a trajetória de discussões sobrea Amazônia. Representa um risco muito grande", disse PedroLeitão, do Funbio. O vice-presidente da Conservação Internacional salienta ainjustiça de tirar de Marina um plano desenvolvido por elajunto aos governos estaduais e municipais, ONGs e movimentossociais. E endossa a preocupação com a entrega da gestão do PASa Mangabeira Unger. "Unger é uma pessoa que não conhece a Amazônia, não temengajamento com movimentos sociais, nem com a comunidade deciência e tecnologia da região. Ele vai ter que aprender o queé desenvolvimento sustentável na região", afirmou.

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