Análise: Robôs podem ter efeito negativo para debate democrático

O uso de novas tecnologias pode aperfeiçoar ou prejudicar a democracia. Aperfeiçoa quando amplia a transparência, permite o engajamento da população, incrementa o acesso à informação. Prejudica quando amplia a desigualdade e acrescenta distorções no processo de debate político.

Luiz Fernando Moncau e Pedro Mizukami, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2015 | 02h05

A partir do uso de robôs - softwares que automatizam em larga escala atividades diversas, como a postagem de tuites, retuites, envio de mensagens no WhatsApp, votos em enquetes, curtidas etc. - é possível manipular informações, fazer propaganda política velada, espalhar boatos e interferir na construção de consenso. Nas eleições de 2014, os candidatos a presidente trocaram constantes acusações quanto ao uso de robôs. Ninguém admite publicamente o uso do recurso. Os robôs estão sempre do outro lado. Ao que tudo indica, contudo, o recurso foi definitivamente incorporado ao arsenal de campanha dos partidos e outros grupos com interesses políticos.

Se o uso dos robôs servir para propaganda política irregular ou a execução dos crimes de calúnia, injúria e difamação, não há controvérsia. É ilegal. Mas também existem usos lícitos. Um eleitor pode autorizar a postagem automatizada de mensagens ou notícias em favor de um candidato ou político. Havendo consentimento - e respeitados os termos de uso da plataforma -, não se configura problema. E há zonas cinzentas, em que os usos não constituem condutas nitidamente proibidas, mas podem ter efeitos negativos para um debate democrático plural e saudável.

Diante das incertezas, pode ser precipitada a regulação que, ao vedar práticas ruins, iniba bons usos da tecnologia. Mas é difícil negar a emergência de um uso tecnológico capaz de desequilibrar o debate. Milhares de contas automatizadas, por exemplo, podem ser contratadas para disseminar informações falsas. Também na internet, o poder econômico pode se transformar em ampla vantagem para determinados grupos.

Luiz Fernando Moncau e Pedro Mizukami são pesquisadores do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio

Tudo o que sabemos sobre:
Luiz Fernando MoncauPedro Mizukami

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.