Análise: Risco de boicote é evidente por causa de danos eleitorais

Ao decidir que todos os candidatos do partido que disputam as eleições municipais deverão ler uma nota pública em defesa do ex-presidente Lula, ante denúncias apresentadas contra ele pelo MPF no contexto da Lava Jato, o PT emite alguns sinais. O primeiro é o de que a legenda impõe às candidaturas que explicitem solidariedade à sua principal liderança no seu momento mais delicado de desgaste e enfraquecimento de sua imagem pública, mesmo frente aos custos eleitorais que a medida pode ocasionar.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2016 | 05h15

Não custa lembrar que o partido já perdeu cerca de 1/3 dos prefeitos que foram eleitos pela legenda em 2012, a maioria deles buscando fugir do desgaste que os sucessivos escândalos provocaram na legenda. 

Um desdobramento da imagem negativa do PT nestas eleições é que boa parte dos candidatos petistas, inclusive os que disputam o mandato de vereador, vem escondendo seu vínculo com o partido e evitando utilizar imagens de Lula e Dilma, antes muito disputadas no auge da popularidade dos dois. Também chama atenção que durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff o partido não tenha tomado medida semelhante em defesa do mandato da agora ex-presidente. A explicação pode estar no fato de que, diferentemente de Dilma, Lula é imprescindível para a sobrevivência do PT num contexto em que o partido nem sequer fez autocrítica profunda dos seus erros, que foram muitos, e ainda não acenou com uma renovação nos seus quadros dirigentes, hoje desgastados perante sociedade.

Apesar de não indicar sanções imediatas para quem porventura não cumprir tal medida, o risco de ela ser boicotada em decorrência do possível dano eleitoral às candidaturas é evidente. 

Tal imposição ocorre num quadro em que o partido nem sequer teve condições políticas de lançar candidatos no Rio de Janeiro e em Salvador e patina, atrás do candidato do PROS, em Belo Horizonte. A obrigação pode aumentar o risco de o partido ficar fora do segundo turno em São Paulo e perder competitividade, onde ainda tem chances: Porto Alegre, Recife e Fortaleza. Ou seja, tal medida pode contribuir para diminuir o peso político que o PT sempre possuiu nos grandes centros urbanos.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira cientista político e professor da FGV-SP

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