Análise: Quanto mais debates, melhor o ensaio

A colunista Cristina Padiglione analisa o último encontro entre os candidatos em São Paulo

Cristina Padiglione, de O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2012 | 00h51

Para os candidatos que tanto combinam, milimetricamente, as regras em torno dos debates que concordam em protagonizar, a vantagem em fazer tudo tão parecido, por vários programas, é chegar ao último encontro com o ensaio devidamente cumprido. Sendo na Globo, dona da maior audiência, o derradeiro embate, bingo, temos ali uma apresentação evidentemente superior. Os "atores" se mostram mais bem preparados, o texto está na ponta da língua e argumentos antes mal estudados saltam da cachola ao microfone em fração de segundos.

 

Embora o tucano José Serra tenha tentado emplacar a ideia de que o petista Fernando Haddad estava "muito nervoso", acusando no adversário alguma agressividade, o duelo entre eles - dos três televisados deste 2.º turno - não foi nem de longe o mais tenso. Haddad, que bem gaguejou nos dois últimos confrontos, chegou à Globo com discurso mais seguro que nunca. Até a respiração, obra essencial para a conclusão de argumentos, mostrava-se mais bem estudada.

 

O encontro de sexta-feira, 26, também se destacou pela desobediência ao cronômetro. Haddad e Serra, que pareciam tão britânicos até aqui, foram por várias vezes advertidos pelo mediador do programa, César Tralli, de que o tempo estava esgotado. O espectador pode acompanhar a contagem regressiva de segundos, o que estimula a ansiedade da plateia, por meio de reloginho digital no canto inferior esquerdo da tela.

 

Para não fugir à regra e aos preceitos do marketing político, gravatas vermelhas deram as caras dos dois lados, com ligeira distinção de tonalidade, mas igualmente cravadas de pois branquinhas - uma delicadeza em meio à aridez de tantas acusações mútuas. E, como a televisão também tem sua cartilha, o cenário não escapou da sina azulada. A cada fim de intervalo, o espectador tinha a chance de conferir o número de assessores e maquiadores que se aproximam dos candidatos para ajustar o make up, fios de cabelo e, principalmente, munições ainda mal exploradas.

 

O mediador se absteve do papel de pedir "à plateia que não se manifeste", mantra reprisado por outros canais e pela própria Globo em outras ocasiões. Com menos de uma hora de duração e intervalos muito curtos, viu-se um bom programa de TV, concentrando o bate-rebate entre candidatos, mas, de novo, sem questões de jornalistas, mediador ou eleitor. E, só para variar, nenhuma troca de olhares entre os dois enquanto se perguntavam ou respondiam. O marketing manda e eles obedecem: olho fixo na câmera, olha lá.

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