ANÁLISE: PT envelheceu à sombra do líder

Independentemente do desfecho do conflito político que envolve Lula e da crise que atinge as instituições do País, as esquerdas, particularmente o partido do ex-presidente, terão de se reinventar

Aldo Fornazieri*, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 05h00

Independentemente do desfecho do conflito político que envolve o ex-presidente Lula e da crise que atinge as instituições do País, as esquerdas, particularmente o PT, terão de se reinventar. Elas enfrentam uma crise no mundo ocidental, com perdas de espaços políticos e com o crescimento da extrema-direita. O que está em crise é o seu ideário, o seu modo de agir, o seu modo de se organizar, o seu conteúdo programático e a sua forma de relação com a sociedade.

A força que ainda têm as esquerdas brasileiras se deve muito mais à liderança e ao poder simbólico de Lula e a antigos líderes, que estão à margem da disputa político-eleitoral, do que propriamente às suas estruturas organizativas e à sua inserção social. O PT envelheceu à sombra de Lula e não conseguiu se renovar e nem transitar para uma era pós-Lula. São poucos os jovens engajados no partido. Sem uma transição geracional, o que há é uma ruptura, com perda de substância política e sem inovação.

O PT e as esquerdas perderam a noção de que a política, principalmente nos momentos críticos, se decide pela força organizada dos partidos e dos movimentos sociais. Poucas agremiações têm trabalho organizado sólido nas periferias. Ali pontificam as igrejas evangélicas, com suas pregações conservadoras.

O Brasil tem mais de 100 milhões de pessoas que vivem com até um salário mínimo. A renda média mensal dos brasileiros é de R$ 1.268. O que explica que num país pobre os partidos que defendem os pobres tenham pouca penetração entre os mesmos? Há algo errado nisso.

As esquerdas se comunicam mal com a sociedade. Precisam rever seus métodos de ação e de organização, abrindo-se mais à participação democrática. Precisam reescrever os seus programas, apostando nas revoluções educacional e tecnológica, precisam criar novos programas de inclusão social em grande escala, removendo os entraves da justiça e da igualdade. Precisam incorporar as novas pautas e lutas temáticas, mas integrando-as a um programa universalista. Este é o maior desafio do PSOL, partido preso a bandeiras temáticas, e que pode herdar bases do PT.

*PROFESSOR DA FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA DE SÃO PAULO (FESPSP)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.