Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Análise: Pressão de apoiadores influenciou recuo de Bolsonaro no subsídio a igrejas

Eventual derrota de Guedes, que é contra subsidiar conta de luz de templo, abriria a porta para novas pressões ao longo do ano

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2020 | 05h00

Antes de convencer o presidente Jair Bolsonaro a recuar da proposta de subsidiar a conta de luz de templos religiosos, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu paciência à equipe de secretários e assessores. 

A adoção da medida, mesmo sem custo direto para os cofres do Tesouro, caminhava na direção contrária à política liberal traçada pelo ministro. Uma derrota nessa seara de concessão de privilégios para setores aliados abriria uma porteira para novas pressões ao longo do ano para benefícios específicos. 

Esse é um risco que está no radar da equipe econômica. Um cenário não muito diferente do que tem ocorrido nos últimos governos e que o próprio Guedes prometeu estancar. 

O bom senso prevaleceu. Além da pressão de Guedes, pesou na decisão do presidente a onda de críticas à medida que pode ser observada entre os seus próprios apoiadores. Basta uma olhadinha mais atenta nas redes sociais do presidente. 

A equipe de Guedes já foi avisada que o presidente também deverá voltar atrás da decisão de não taxar a geração de energia solar. Ontem, o presidente manteve o discurso de que a taxação do sol não acontecerá. No entanto, ficou acertado que a solução de diminuição gradual dos subsídios cruzados (aqueles que um grupo de consumidores pagam por outros na tarifa), proposta pela Aneel, será enviada via projeto de lei ao Congresso. Os consumidores agradecem. 

O ministro Guedes está plenamente convencido de que conseguiu mostrar para o presidente o erro de prosseguir com esse discurso e que o subsídio, na prática, vai recair sobre os mais pobres. 

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que tinha embarcado na mesma ideia de Bolsonaro sobre a não taxação de energia solar, também já recuou, alertado por economistas do setor privado que são seus conselheiros. 

Quem se queimou no episódio foi o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que para atender o chefe deu guarida à ideia de subsidiar a luz dos templos. Era o seu ministério que deveria estar cuidando de acabar com os subsídios cruzados. 

A concessão de mais subsídios cruzados nas tarifas seria um atropelo no modelo de modernização do setor elétrico, cujo novo marco está em discussão no Congresso. 

Os primeiros dias do ano mostraram que não será nada fácil conter os pedidos por benesses que partem dos aliados de Bolsonaro. Se teve que ceder nos R$ 6 extras de reajuste do salário mínimo, uma medida justa sob todos aspectos, Guedes vai precisar dizer "não" mais vezes. Do contrário, vai perder o discurso da sua agenda liberal. 

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