GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Análise: Presidente sempre retrocede taticamente após atacar

Questionado, desconversa, sai pela tangente, acusa má interpretação ou distorção – para, em seguida, retomar o estilo que lhe distingue.

Cláudio Gonçalves Couto*, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 05h00

Nos últimos dias, Bolsonaro reiterou o comportamento que adota há muito tempo: o morde-e-assopra. No domingo, prestigiou manifestantes que, diante de um quartel, em Brasília, clamavam por intervenção militar com Bolsonaro no poder, fechamento do Congresso Nacional e do Supremo, novo AI-5. Não só lhes acenou, mas proclamou que estava ali porque neles acreditava. Disse nada negociar, pois acabou a patifaria da velha política e agora o povo ocupa o poder por meio de seu presidente.

Nem um só gesto a desencorajar clamores por ruptura institucional, golpe militar e encerramento dos demais Poderes. Ao enaltecer os manifestantes, endossou seus anseios; dizendo que acreditavam no Brasil ao lhe prestigiar diante de um quartel, Bolsonaro equiparou-se ao próprio País. Síntese do populismo autoritário.

Nesta segunda-feira pela manhã, diante do Alvorada, aproveitou o conveniente apelo de um seguidor para repelir ideia que, na véspera, endossara: fechar os demais Poderes. Por que o fez? Pressionado por militares? Assustado com a repercussão? Tendo como parâmetro a longa trajetória de Bolsonaro: recuou porque sempre retrocede taticamente após atacar. Porém, o “mito” se construiu não com recuos, mas com ataques. Segue idêntico, sempre avançando mais que recuando.

Fez assim com manifestações misóginas, racistas, homofóbicas, autoritárias e desumanas. Questionado, desconversa, sai pela tangente, acusa má interpretação ou distorção – para, em seguida, retomar o estilo que lhe distingue.

*CIENTISTA POLÍTICO, COORDENADOR DO MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS DA FGV EAESP

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