DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Carlos Pereira: Com Lula elegível, certeza de polarização

Nada mais necessário para a sobrevivência da polarização do que a reprodução da rivalidade entre os polos opostos que se retroalimentam

Carlos Pereira*, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 10h06

A decisão do ministro do STF e relator da Lava Jato, Edson Fachin, de considerar o juízo de Curitiba incompetente para julgar casos de corrupção não diretamente relacionados a Petrobrás, trás o ex-presidente Lula de volta ao jogo eleitoral.

É importante ressaltar que a decisão do Ministro Fachin não é de mérito, mas apenas de competência, o que resguarda a fase instrutória do processo. Lula, portanto, não sai inocente. Deverá agora enfrentar um novo julgamento na primeira instância da justiça do Distrito Federal. 

Se já era muito provável que o PT, partido que sempre apostou no protagonismo político, teria candidato próprio à presidência em 2022, com Lula elegível essa passou a ser uma certeza. 

Certeza também é o cenário de polarização entre Lula e Bolsonaro. Nada mais necessário para a sobrevivência da polarização do que a reprodução da rivalidade entre os polos opostos que se retroalimentam. Um extremo necessita do outro. Um polo não vive apenas de suas próprias identidades e valores, mas especialmente de rivalidades, animosidades e antagonismos com polo rival.

Será a campanha do aintipetismo versus o antibolsonarismo. Ainda não sabemos qual polo será o vencedor dessa disputa, mas certamente já sabemos quem será o perdedor: o eleitor que se cansou dessas alternativas extremas e que busca um candidato mais moderado e que gere menos incertezas.

Nas três rodadas da pesquisa que desenvolvi ao longo do ano de 2020 sobre os impactos políticos da pandemia, ficou claro que um contingente considerável de eleitores que votaram em Bolsonaro em 2018 ficou extremamente desapontada com o desempenho do governo, especialmente com a gerência da pandemia. A rejeição desse eleitor ao presidente é diretamente relacionada com a sua proximidade com a covid-19. Quanto maior a gravidade, maior o descontentamento com Bolsonaro.

Entretanto, esse mesmo eleitor desapontado com o desempenho do presidente consideraria votar nele novamente se for para evitar a vitória do PT ou de outro partido de esquerda. Ou seja, o eleitor pragmático que votou em Bolsonaro em 2018 pelo anti-petismo continuaria disposto a votar nele novamente por esse motivo.

Se o centro não tiver capacidade de se coordenar e viabilizar um candidato competitivo o mais rápido possível, correrá o risco de deixar seus eleitores mais uma vez órfãos. 

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR TITULAR DA ESCOLA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS (FGV EBAPE)

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