JOSE PATRÍCIO/ESTADÃO
JOSE PATRÍCIO/ESTADÃO

Análise: Pode isso, Arnaldo? Não, não pode. A agenda socioambiental é inegociável

Sinais dados até agora pelo futuro governo privilegiam uma visão fragmentada e até negacionista frente a evidências científicas

Mario Monzoni e Paulo D. Branco*, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 05h00

Em 1952, Londres foi invadida por densa fumaça que fez ao menos 4 mil vítimas fatais. A fumaça tomou conta da cidade, causando um dos maiores desastres ambientais do país. Questionado por desconsiderar alertas e por insistir em uma política energética baseada no carvão, Churchill disse algo como “É o clima! É passageiro! É a vontade de Deus!”. A tragédia traz grande aprendizado para os dias de hoje.

Há muito as questões ambientais extrapolaram suas fronteiras territoriais ou conceituais. As últimas, aliás, só justificáveis pela nossa incorrigível prática de fragmentar realidades interdependentes. Exemplos se multiplicam mundo afora, como as perdas no setor madeireiro canadense, decorrentes de doenças causadas por micro-organismos cuja taxa de reprodução se desequilibrou em função do aumento da temperatura média em seu território e, mais perto de nós, a multiplicação de vetores de moléstias tidas como erradicadas nos países tropicais, em estreita correlação com as taxas de desmatamento, o que atinge diretamente a população e onera o sistema de saúde.

No caso do Brasil, onde os recursos naturais são o pilar dos principais setores econômicos, como o agrícola e o de energia, o desafio da interdependência se acentua ainda mais para o novo governo. No entanto, os sinais dados até agora privilegiam uma visão ainda fragmentada, e até negacionista frente a evidências científicas, considerando a agenda ambiental como um entrave ao desenvolvimento. Mostras dessa fragmentação se revelam na retórica hostil a temas cruciais para um Brasil que se quer contemporâneo, entre eles a participação no Acordo de Paris sobre mudança do clima, crucial para tentarmos deter a elevação da temperatura média do planeta e seus impactos sobre o conjunto da sociedade; e a demarcação de áreas protegidas, como as terras indígenas, amplamente reconhecidas como fonte de ativos e conhecimentos tradicionais que, aliados à ciência e à tecnologia, poderão nos colocar na fronteira das inovações em fármacos, química verde e tantos outros setores estratégicos, desde que saibamos manter as floretas de pé, com e seus inúmeros serviços ecossistêmicos preservados.

A interdependência da dimensão ambiental com a econômica e a social já desafia governantes no mundo todo a implantar políticas públicas que promovam bem-estar ao mesmo tempo em que respeitam a capacidade dos ecossistemas. Dentre os fatores que explicam a urgência desse olhar integrado está o chamado nexo água, energia e alimentos, que destaca a correlação entre estas variáveis na medida em que o aumento da oferta direta de uma implica na depleção das outras e nas respectivas cadeias de produção e provimento.

Num país cuja matriz energética está intimamente ligada aos recursos hídricos e cuja participação do agronegócio no PIB já ultrapassa 20%, fica evidente a centralidade dessa relação como elemento chave da agenda ambiental. Adotar uma perspectiva integrada é, portanto, um fator crítico de sucesso para o futuro governo, não só por fortalecer a economia, mas também nos garantir segurança hídrica, energética e alimentar. Quem sabe seja essa perspectiva um dos pontos de convergência para um país que tanto precisa dialogar sobre seu presente e o futuro que se avizinha.

*Coordenadores do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV

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