ANÁLISE: PMDB, o partido-ônibus

A expressão usada por FHC nos anos 1970 serve de metáfora para a avacalhação atual; salvo exceções, o fisiologismo é o dínamo do motor e os cargos públicos, a solda do chassi

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2017 | 05h00

Nos anos 1970, Fernando Henrique classificou o MDB de "partido-ônibus": um agregado de personagens heterogêneos entre si, definido pelo combate ao regime militar. Uma frente chamada de "partido" por licença poética e pelo bipartidarismo dos generais. Aglutinava a "oposição", mesmo que vários de seus membros não fossem tão oposicionistas assim.

Mas, o MDB possuía pudores e princípios; contava com lideranças capazes de articular a unidade nacional da sigla. Havia, sim, fisiologismo e defecções eventuais, mas a lógica era mais política que franciscana (o "é dando que se recebe"). Na direção, gente como Franco Montoro, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Thales Ramalho, Paulo Brossard.

Seu sucessor histórico, o PMDB, herdou-lhe as iniciais do nome, muito dos vícios e nenhuma das virtudes.

A expressão usada por FHC serve de metáfora para a avacalhação atual. (Diga-se, a seu favor, que não foi apenas com o PMDB; no geral, deu-se a peemedebização do sistema.) O partido compreende um ônibus lotado de políticos sem identidade comum, nem conexão com a sociedade; vai tresloucado, sem freio, em direção aos recursos públicos.

Ao motorista circunstancial — presidente nacional — cabe deixar fluir os interesses da cacicaria, sem conflitos; somente quem perde força local é molestado.  Não por acaso, Michel Temer presidiu o PMDB por tanto tempo: casou à lógica geral os interesses parciais de famílias e consórcios regionais. Salvo exceções, o fisiologismo é o dínamo do motor; os cargos públicos, a solda do chassi.

O gene da sobrevivência política é dominante e subordina os demais. O destino do país, questão secundária: salvar a economia ao custo de não reeleger a si próprio é um despautério. Ainda mais quando nas tais prerrogativas — tão alargadas — do Foro Especial reside a liberdade (ou não) do sujeito.

Não há incoerência nos flertes com a candidatura de Lula, mesmo após o impeachment; o "interesse local" é soberano. As pesquisas dizem que o ex-presidente ainda cala fundo no eleitor do Nordeste — fosse em SP, haveria igual debandada —; onde houver um voto a transportar, o ônibus do PMDB passará por lá.

Sem Ulysses, Montoro ou Brossard; Renans, Eunícios, Michels e Geddéis retorcem-se a cada curva do caminho, nos buracos da via; no sacolejo da carroceira, agarram-se à balaustrada: "um passo à frente, por favor"; "vai descer?"; "não, só dar sinal".

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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