ANÁLISE: Pesquisas do Planalto norteiam discurso contra ‘conspiradores’

O presidente Michel Temer agora recorre à expressão que tanto abominou para se defender

Vera Rosa e Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2017 | 05h00

Acostumado a escrever cartas, o presidente Michel Temer já usou outras vezes a palavra “conspiração” para se referir ao que chama de armadilha montada para incriminá-lo, mas decidiu subir o tom após a divulgação de vídeos nos quais o delator Lúcio Funaro o acusa de participar de um poderoso esquema de corrupção. Embora a mensagem enviada nesta segunda-feira, 16, por Temer a parlamentares não cite nem o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), nem o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, a dupla é vista com muita desconfiança no Palácio do Planalto.

Às vésperas da votação da segunda denúncia contra Temer, auxiliares do presidente afirmam, nos bastidores, que há um “ativismo político” de ministros do Supremo e não entendem os movimentos de Fachin. As articulações de Maia também provocam desconforto crescente no governo. A crise aumentou após o feriado, quando se descobriu que os vídeos com a delação de Funaro estavam no site da Câmara.

Usadas como termômetro para guiar as ações de Temer, pesquisas qualitativas em poder do Planalto mostram que a população rejeita “conspiradores”. Foi por isso que o presidente decidiu investir nesse discurso. Assim, pouco mais de um ano após ser acusado de ter conspirado para derrubar a então presidente Dilma Rousseff – a quem também escreveu carta com um “desabafo”, no fim de 2015 –, Temer agora recorre à expressão que tanto abominou para se defender. Nesse cenário, a tese do “golpe”, antes na boca dos petistas, virou escudo para ele e para a cúpula do PMDB.

Em 22 de setembro, por exemplo, o presidente falou em “conspiração de múltiplos propósitos” em um vídeo divulgado nas redes sociais. “Conspiraram para deixar impunes os maiores criminosos confessos do Brasil, finalmente presos, porque sempre apontamos seus inúmeros delitos”, disse Temer à época. Uma semana depois, em nota, ele também recorreu ao mesmo termo. Agora, porém, Temer adicionou outros personagens à “conspiração”, mesmo que na carta aos parlamentares eles estejam ocultos.

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