ANÁLISE: Partidos têm menos coesão do que grupos ‘parapartidários’

O número de candidatos que disputaram a presidência da Câmara revela, pelo menos, duas situações que têm sido comuns na história recente da política brasileira. A primeira situação refere-se à carência de líderes com boa reputação pública capazes de formular acordos e construir agendas legislativas como instrumento de debate público que possibilitasse, minimamente, avançar em respostas que são necessárias para diminuir o déficit de credibilidade dos legisladores perante a sociedade. 

Marco Antônio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2016 | 05h00

A segunda situação vem escancarar ainda mais a incapacidade dos partidos políticos de coordenar as ações coletivas dentro de suas bancadas e produzir um mínimo de consenso político em torno de alguma candidatura. Apesar da votação secreta, o resultado traz algumas evidências: 1) os votos do PT acabaram se dispersando entre pelo menos três candidatos (Marcelo Castro, Orlando Silva e Luiza Erundina); 2) os deputados do PMDB se dividiram entre Rogério Rosso (o preferido de Eduardo Cunha), o peemedebista Marcelo Castro e outras candidaturas como a de Rodrigo Maia; 3) tal dispersão evidencia o quanto as bancadas parapartidárias (Centrão, ruralistas e evangélicos, por exemplo) vêm conseguindo obter mais coesão dentre os seus membros do que os próprios partidos em que eles estão filiados.

As implicações políticas da vitória de Rodrigo Maia (DEM) podem ser vistas de diferentes perspectivas. Michel Temer tem motivos para ficar feliz e para se preocupar. O contentamento vem do fato de o governo interino ter ficado livre de continuar tendo um aliado de Cunha conduzindo a Câmara. Isso pode destravar pautas e diminuir o custo político da tramitação de projetos de interesse governamental. Todavia, Temer deve se preocupar com o tipo de reação que pode ser desencadeada pelo chamado Centrão com a derrota do seu candidato, como também sobre a imprevisível postura que Cunha poderá adotar daqui para frente em relação ao governo, lembrando que ele ainda tem influência sobre pelo menos uma centena de parlamentares. De todo modo, a chegada do DEM à presidência da Câmara tem como consequência o enfraquecimento do Centrão e daquele que seria o seu principal articulador. O triunfo de Maia foi comemorado imediatamente no plenário com gritos de “fora Cunha”.

Do lado da oposição (PT, PSOL, Rede, PCdoB e PDT), o fraco desempenho de seus candidatos (Luiza Erundina e Orlando Silva) demonstra as limitações concretas do grupo para organizar a atuação institucional na Câmara. A oposição – sobretudo o PT – só vai avançar em agendas legislativas se reaprender a atuar como caixa de ressonância de demandas sociais de grupos que não estão sendo contemplados pelo governo e agir como fiscal da ação governamental. Para isso, não poderá dar prioridade apenas à ação institucional sem antes dialogar com diferentes atores da sociedade. 

Por fim, não há, pelo menos no curto prazo, a perspectiva de pacificação na Câmara, algo que o novo presidente da Casa colocou como objetivo de sua gestão. 

As dúvidas acerca de como o Centrão vai se comportar frente ao espaço político que perdeu e as incertezas acerca dos desdobramentos da Lava Jato e da possível cassação do mandato de Cunha não permitem fazer essa projeção.

* CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE GESTÃO PÚBLICA DA FGV-SP

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