ANÁLISE: Operação reativa pressão sobre mandato de Dilma

Prisão de João Santana reacende as suspeitas, especialmente entre os partidos de oposição, de que a campanha de Dilma possa ter sido irrigada com dinheiro irregular

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2016 | 14h54

BRASÍLIA - O papel central do marqueteiro João Santana nas últimas campanhas presidenciais petistas é inegável. Se com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ele foi importante, nas duas eleições da presidente Dilma Rousseff assumiu o papel de principal estrategista. Responsável pela construção da candidatura à reeleição e, especialmente, pela desconstrução dos adversários petistas, Santana foi o cérebro de toda a campanha. Sem ele, Dilma dificilmente teria vencido uma disputa na qual o desgaste do governo petista e da economia já se tornavam fatores relevantes.

Assim, quando Santana recebe ordem de prisão por receber pagamentos no exterior que teriam origem ilegal, e tendo conhecimento dessa irregularidade, conforme afirmaram nesta segunda-feira, 22, representantes da Polícia Federal, a situação se torna muito complicada. Porque reacende as suspeitas, especialmente entre os partidos de oposição, de que a campanha de Dilma possa ter sido irrigada com dinheiro irregular. Incluindo o próprio pagamento pelo trabalho de marqueteiro.

Essa suspeita trará o mandato de Dilma de volta para o centro das discussões. Se politicamente, o pedido de impeachment contra ela nasceu contaminado por ter sido deflagrado por um inimigo declarado - o presidente da Câmara, Eduardo Cunha - a tentativa de cassação da chapa pela suspeita de irregularidades no pagamento ao marqueteiro e em outras despesas surge com outro conteúdo. Na verdade, se basearia na investigação de crime eleitoral por uso de verbas não declaradas à Justiça Eleitoral.

Num exercício de futurologia, pode-se imaginar as consequências da prisão de Santana, que não foi detido pela operação por estar na República Dominicana. Preso, o marqueteiro prestará depoimento. Pode confirmar ou não suas acusações. Pode contar ou não qual foi a origem de seus pagamentos. Pode empurrar ou não o abacaxi para o colo de Dilma, atribuindo-lhe um suposto conhecimento dos pagamentos suspeitos.

É cedo para adivinhar todos os efeitos do novo escândalo. Mas a temperatura política subiu muito pela Lava Jato ter fechado o cerco em cima de uma figura tão próxima de Dilma e Lula.

Planalto. Para o governo, o timing não poderia ser pior. A presidente ensaiava movimentos de recuperação, depois de atravessar um 2015 desastroso na política. A vitória do deputado Leonardo Picciani (RJ) na eleição para líder do PMDB na Câmara representou um enfraquecimento de Eduardo Cunha, desafeto declarado do governo. Além disso, na economia, a troca do ministro Joaquim Levy por Nelson Barbosa, na Fazenda, trouxe um fôlego para que o governo voltasse a discutir mudanças conjunturais e reformas constitucionais. Tal coisa parecia impossível tamanho era o desgaste de Levy no fim do ano passado.

Em busca de uma agenda positiva, Dilma e o PT só tem encontrado problemas. Seja a proliferação do mosquito Aedes aegypt e das consequentes zika e dengue, seja a crise econômica. Para sair dessa sinuca de bico, o governo contava com o sucesso da tática de reconquistar a base de apoio dentro do Congresso. Agora, com Santana tendo a prisão ordenada, Dilma precisará atravessar o deserto desgastada pela prisão do aliado e com a sombra do pedido de cassação de sua chapa se tornando uma realidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.