ANÁLISE: O PT e as próximas eleições: naufrágio à vista?

Os petistas devem estar lendo com preocupação – e seus adversários com alegria – os  dados disponíveis quanto às candidaturas para as próximas eleições de prefeitos. Em escala nacional, registra-se uma queda de cerca de 35% na comparação entre 2012 e 2016. Mesmo em São Paulo, há uma diminuição importante, de 251 para 116 candidatos.

Daniel Aarão Reis*, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2016 | 05h00

Numa interpretação otimista, lideranças do PT falam de “perda de gordura” em benefício de maior autenticidade ou usam a tradicional expressão de desprezo: “ratos abandonando o navio às vésperas de um eventual naufrágio”. Já no extremo oposto, não faltam previsões agourentas anunciando o “definitivo” declínio do partido.

Nem uma coisa  nem outra.

Quanto aos ratos, infelizmente para o partido, muitos que se foram não pertencem à espécie. Já outros – gordas ratazanas – continuam, mantendo com firmeza o leme do partido. E não se vê ainda no horizonte uma autocrítica que possa restabelecer uma autenticidade perdida. Mas é um engano imaginar fim catastrófico para o Partido dos Trabalhadores.

A principal razão é que o PT tornou-se a maior expressão do nacional-estatismo, uma cultura política histórica e  profundamente ancorada neste País, tanto nas classes populares quanto em expressivos setores das elites. Uma cultura política deste tipo pode sofrer solavancos, altos e baixos e mesmo mutações, mas não há hipótese de que  morra de morte súbita. Fundada no âmbito da ditadura do Estado Novo, liderada por Getulio Vargas,  com apoio e sustentação nas classes populares e em parcelas expressivas do empresariado e das burocracias civis e militares, o nacional-estatismo, sempre incentivando corporativismos de distinta índole, em diferentes classes e categorias sociais, fincou raízes na Terra dos Papagaios e ainda terá vida longa.

Nesta perspectiva, Dilma e Lula são apenas os atuais herdeiros de Vargas. Mesmo que entrem em eclipse – o que é duvidoso a curto prazo –, a cultura política permanecerá.

* Professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.