ANÁLISE: O maior desafio do PT será o de se reconstruir pós-Lula

Lula tem hoje forte apelo eleitoral por tudo que representou na construção da trajetória política do Partido dos Trabalhadores e, principalmente, por conta do período em que governou o País

Danilo Cersosimo, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2018 | 05h00

Muitos apostam na capacidade de transferência de votos do ex-presidente Lula para um eventual sucessor caso sua inelegibilidade se confirme. No entanto, isso se daria em qual contexto?

O desafio de eleger o próximo presidente já será grande o suficiente para o PT caso o candidato seja outro que não Lula – ainda mais complicado na hipótese de o ex-presidente estar encarcerado e sem condições de participar ativamente do corpo-a-corpo com o eleitorado e costurar alianças.

Partido com trajetória relevante na histórica política e social do Brasil, o PT degringolou após seu apogeu. Se em 2012 viu seus candidatos conquistarem 638 prefeituras pelo País, em 2016 foram apenas 256 (quase 60% a menos quando comparado com o período anterior). Em São Paulo, onde 4 anos antes Lula demonstrava sua força e elegia o novato Fernando Haddad, a situação se inverteu e o então prefeito sequer chegou ao 2.º turno. 

No Nordeste, os resultados também não foram animadores. Na Bahia, do ex-governador Jacques Wagner e possível alternativa à Lula, o PT conquistou 40 prefeituras (contra 92 em 2012). No total, o partido conquistou 113 prefeituras na região (contra 187 em 2012) e não governa nenhuma capital nordestina. Atualmente, a única capital que conta com um prefeito do PT é Rio Branco, no Acre.

Na ocasião, é bom lembrar, Lula subiu ao palanque de seus candidatos e foi cabo eleitoral vigoroso da maioria deles. Não surtiu efeito por conta da derrocada institucional do partido atingido pela Lava Jato, pelo enfraquecimento político resultante do impeachment da ex-presidente Dilma e pela perda da sua identidade ideológica. 

Lula tem hoje forte apelo eleitoral por tudo que representou na construção da trajetória política do Partido dos Trabalhadores e, principalmente, por conta do período em que governou o País – em dezembro de 2010, o então presidente tinha 83% de avaliação “bom ou ótimo” de acordo com o Pulso Brasil da Ipsos. 

Em que pesem os impactos pós-Lava Jato, Lula ainda conta com 44% de aprovação de acordo com o “Barômetro Político Estadão-Ipsos” – pesquisa realizada entre os dias 2 e 11 de janeiro – e é o líder de intenções de voto na corrida eleitoral. Porém, esse capital parece ser só dele e não do PT. Ao longo dos anos, o lulismo se tornou maior que o petismo.

O maior desafio do PT será o de se reconstruir pós-Lula. 

*SOCIÓLOGO PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E MESTRE EM ESTUDOS URBANOS PELA UNIVERSITY COLLEGE LONDON (UCL)

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