ANÁLISE: O gesto de Dilma pesará sobre Temer como um espectro a rondar noites palacianas

Se não se comunicou com a Nação, é fato que presidente afastada buscou seu eleitor, submetendo a ele, e não aos senadores, o julgamento da História

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2016 | 05h00

Há pelo menos dois aspectos a ressaltar no discurso de Dilma Rousseff, diante de seus prováveis algozes no processo de impeachment: o gesto de ir ao Senado e o mérito do que disse. O gesto realmente indica coragem; inegavelmente, Dilma é uma mulher de fibra; abandonada à própria sorte, num ambiente hostil, deu as caras para fazer valer sua versão, sua narrativa. Outros se omitiram. Se não se comunicou com a Nação, é fato que buscou seu eleitor, submetendo a ele, e não aos senadores, o julgamento da História. 

Coragem pessoal à parte, no mérito, contudo, Dilma não surpreendeu: reafirmou a biografia, a resistência à tortura. Elementos que ajudaram a levá-la ao poder, mas, naturalmente, insuficientes para ali mantê-la. O passado fala, mas é o presente que grita. No presente, pouco acrescentou; foi previsível: a conspiração de Eduardo Cunha, a chantagem à qual não se submeteu – meias-verdades; a crise econômica internacional, seus efeitos perniciosos só para ela imprevisíveis; os defeitos do sistema político; os males do governo provisório. De dramático, apenas o apelo: “impeachment é pena de morte política”. 

A Dilma que emerge desse discurso é conhecida: não cometeu erros, não teve falhas. As culpas, se há, são dos outros. O inferno são os outros. Ideologicamente, estavam corretos a intervenção, o gasto, o benefício desastroso a grupos específicos. Suas escolhas não são questionáveis; não se lhe pode negar coerência, nem descompromisso com o erro. O estilo é outro ponto: inicialmente contida, a impaciência fez desabrochar a presidente irritadiça e professoral; o gênio mercurial que não lhe trouxe nem traz qualquer vantagem.

As cartas já estavam jogadas; dificilmente, qualquer senador desistiria da convicção já formada. No plenário, não havia a quem convencer. No prazo imediato, os efeitos do gesto e do discurso não se farão sentir; no médio e no longo prazos, no entanto, tanto mais serão lembrados quanto menor for o desempenho econômico e político de seu sucessor. O gesto de Dilma pesará sobre Temer, como um espectro a rondar suas noites de Palácio.

*Cientista político e professor do Insper

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