ANÁLISE: O dilema tucano

PSDB vive o maior dilema de sua história, que coloca o partido em conflito com suas próprias raízes: permanecer ou não na base de sustentação do governo Michel Temer

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2017 | 09h15

"Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas, nasce o novo partido." A frase, cuja autoria é atribuída ao ex-governador Franco Montoro, aparece na epígrafe do Manifesto de criação do PSDB em 1988. Entretanto, passados quase 30 anos, os tucanos vivem o maior dilema de sua história e que coloca o partido em conflito com suas próprias raízes: permanecer ou não na base de sustentação do governo Michel Temer.

O que está em jogo? Questões que envolvem a sobrevivência do governo Temer, interesses de lideranças com projetos para a sucessão presidencial de 2018 e o naufrágio que pode representar uma eventual condenação de Aécio Neves pelo STF.

Geraldo Alckmin e João Doria estão liderando a resistência pró-Temer. O aumento da instabilidade política com um possível afastamento de Temer poderia atingir eleitoralmente aliados do governo, como ocorreu em 2016 com o PT, o que poderia comprometer o projeto presidencial de Alckmin. Por isso, continuar apoiando o governo com justificativa de que é preciso “aprovar as reformas” aparece como justificativa na busca de estabilização política.

A defesa de Doria ao governo Temer segue o mesmo caminho, mas incorpora uma tonalidade perigosa. Ao alegar que “nosso inimigo é o PT” ele aposta que a atual polarização serve de escudo de proteção para o governo e que a disputa PT versus PSDB poderá sobreviver a 2018, por isso vem mantendo uma retórica antipetista agressiva.

Por fim, a tentativa de salvar Aécio Neves é um dos ingredientes que mantêm os tucanos ligados ao PMDB. Certamente, o rompimento do PSDB com o governo também enfraqueceria eventuais iniciativas legislativas voltadas para a diminuição da extensão das punições a que políticos dos mais diferentes partidos denunciados pela Operação Lava-Jato poderão sofrer.


*Marco Antonio Carvalho Teixeira é cientista político da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP)

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