ANÁLISE: Nova denúncia virou teatro enfadonho para atores e plateia

Se Temer resistiu bem na CCJ e no plenário da Câmara na primeira denúncia de Janot, sobrou pouco bambu para a segunda flechada. Desde o início, oposição e governo sabiam que só consumiria tempo e energia do presidente, mas sem nenhum efeito prático

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2017 | 05h00

A segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, por obstrução da Justiça e organização criminosa, transformou-se num espetáculo enfadonho para a plateia e num fardo para seus atores, que sabem antecipadamente o desfecho. A sensação é de que não vai dar em nada. Portanto, é acabar logo com isso. O próprio relator na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), colaborou bastante ao apresentar nesta terça-feira um parecer enxuto, rápido, e juntar no mesmo texto Temer e seus ministros Moreira Franco (Secretaria-Geral) e Eliseu Padilha (Casa Civil). Tudo para ganhar tempo, mas aproveitando para condenar a “criminalização da política”.

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, aliás, mirou no que viu e acertou no que não viu com suas derradeiras flechadas. Os adversários de Janot o acusam de “obsessão” para atingir Temer, mas ele acertou em cheio foi o PSDB, já combalido.

Se Temer resistiu bem na CCJ e no plenário da Câmara na primeira denúncia de Janot, mesmo com o áudio de Joesley Batista (J&F) no Palácio do Jaburu e o vídeo da mala de dinheiro com o ex-assessor presidencial Rodrigo Rocha Loures, sobrou pouco bambu para a segunda flechada. Desde o início, oposição e governo sabiam que só consumiria tempo e energia do presidente, mas sem nenhum efeito prático. Só uma questão de paciência.

Temer foi obrigado a retomar a rotina de almoços, jantares e liberação de emendas parlamentares, ocupado demais com a política para comemorar as notícias positivas para a economia. É chato, mas suportável para quem passou a vida toda na política e presidiu a Câmara três vezes.

Pior mesmo foi o efeito desta segunda denúncia no PSDB, que já tinha sido atingido duramente com as delações de Joesley contra Temer e Aécio Neves, seu presidente. Sempre dividido, em cima do muro, o partido passou a conviver com denúncias da Lava Jato contra seus líderes, o esfarelamento da carreira política de Aécio e a fragilidade política do governo que ajudou a instalar e é peça fundamental para segurar.

O racha do PSDB é o único capítulo com alguma emoção no teatro da segunda denúncia, oscilando entre o drama e a comédia. Se é dramática uma divisão meio a meio da bancada da Câmara, com troca pública de ironias e acusações, é cômico ter um tucano, sem ter, na relatoria da CCJ. Como assim? Bonifácio de Andrada é do PSDB, mas está na função pelo PSC. Para piorar, na vaga do deputado Pastor Marco Feliciano. É para rir ou para chorar?

Ninguém lucra com uma segunda denúncia contra o presidente, sabendo-se de antemão que não vai dar em nada. Temer amarga de 3% a 5% nas pesquisas, a opinião pública está irada, a reforma da Previdência desidratou, os investidores estão em compasso de espera, os deputados, ou ganham um palanque para proselitismo anti-Temer, ou têm de se expor defendendo um presidente impopular. E o PSDB esfarela. Alguém sabe dizer quem lucra com tudo isso?

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