Análise: Não há solução à vista para crise aérea

O governo diz que tem um plano B para se prevenir de novas investidas por parte dos controladores de vôo, mas "o dado concreto" é que não há solução à vista para a crise aérea, segundo análise de Dora Kramer, em sua coluna no Estado desta quinta-feira, 5. O tal plano B incluiria o remanejamento de cerca de 1.500 oficiais no longo prazo e de pelo menos 60 de imediato. Por enquanto, o que se tem é apenas a promessa dos controladores de uma trégua no feriado desta semana. Greve explícita como a da última sexta-feira, os sargentos também não têm mais moral nem força para fazer, avalia Dora. No entanto, as lideranças sindicais dos controladores de vôo ouvidos pelo Estado não descartam a possibilidade de novas paralisações, mesmo durante o feriado da Páscoa, que começa nesta quinta-feira. O clima é de insegurança.Segundo o presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo, Jorge Botelho, a pressão é grande e os controladores podem tomar uma atitude "desvairada". "Está tudo fora do controle", afirmou. Botelho é um dos principais interlocutores dos controladores com o governo, mas representa apenas os civis. Boa parte da tensão é provocada pelo fato de os controladores darem como certa a punição depois de concluídas as investigações dos inquéritos policiais militares (IPMs) abertos a pedido do Ministério Público Militar. Preocupados com a punição pelo motim e com o recuo do governo em negociar com eles, afirmam estar "tensos e sem condições de trabalho". Plano em gestaçãoHá ainda o clima de nervosismo instalado nos Cindactas (centros de controle de tráfego aéreo), desde que a responsabilidade pelo controle da situação voltou para o Comando da Aeronáutica, por conta da forte pressão dos chefes militares sobre os controladores, que vem sendo monitorados a todo o momento a fim de evitar qualquer tentativa de paralisação. E os sinais do descontentamento dos controladores parecem evidentes. Internamente, os civis estão organizando uma nova paralisação, porém o dia do novo apagão aéreo ainda está sendo mantido em absoluto sigilo. Atualmente, há 2.115 controladores militares e 413 civis.O passo seguinte é outra ação para forçar o governo a retomar as negociações, desta vez com os militares: desencadear um processo de pedidos de baixa coletivos dos controladores militares mais antigos - o que representaria, segundo um líder sindical ouvido pelo Estado, a retirada de pelo menos 40% dos que atuam no País. A intervenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao nomear um civil - o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo - para acabar com o motim dos controladores desencadeou uma crise militar por quebra de hierarquia. Segundo Dora Kramer, uma vez a crise instalada, o presidente da República fez o que deveria ser feito: repôs as coisas no lugar, recompôs a autoridade militar e parece ter entendido que o ato de governar pressupõe antes de tudo o respeito à lei. Mas, daí a falar em normalidade do sistema de tráfego aéreo vai uma distância enorme, avalia Dora. "Não há tumulto, mas a situação é a mesma de quinta-feira passada. Antes do motim, havia apreensão, desinformação e incertezas. Este quadro por ora não foi alterado. A estaca voltou ao zero."Tranqüilizar passageirosDe acordo com sua avaliação, as questões que resultaram na série de sabotagens sistemáticas aos pousos e decolagens de aviões continuam em aberto. "Se não há negociação possível - e não há, porque comandante militar não negocia com subordinado -, é de se perguntar o que exatamente o poder público pensa em fazer para evitar a repetição das ocorrências que marcaram os últimos seis meses de caos nos aeroportos." Segundo ela, o governo errou "e errou feio", mas agora é olhar para a frente e assegurar tranqüilidade aos passageiros, "seja no que tange a horários de partidas e chegadas, seja em relação à segurança dos vôos". Dora lamenta a frase em portunhol "de Mussum" do presidente, dita na última quarta-feira, ?se quedem tranquilis?, que, segundo ela, mostra o mais triste: "Lula continua fazendo piada com o infortúnio alheio". (Colaboraram Expedito Filho e Ana Paula Scinocca)

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