ANÁLISE: Não é político, é candidato

Não se iluda quem pensa que João Doria é fenômeno restrito a São Paulo; em périplo no Nordeste, o prefeito amealha mais que títulos de cidadão, conquista apoios

Cláudio Gonçalves Couto*, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2017 | 05h00

João Doria se elegeu prefeito com o bordão de que não era político, mas gestor. Embora disputar uma eleição – ainda mais de tal importância – signifique fazer política com toda plenitude, o bordão funcionou porque grande parte dos eleitores não notou a contradição – ou não se importou com ela.

Já no cargo em que pretensamente poria em prática suas habilidades de gestor, Doria seguiu fazendo política plenamente, ou ao menos política da forma mais elementar numa democracia, que é a disputa eleitoral. Tanto que, desde quando se tornou prefeito, não houve uma única semana em que não tenha produzido factoides e discursos voltados à exaltação de sua personalidade e à sensibilização ideológica do eleitorado.

Quanto a este ponto, destaca-se a persistência em apresentar-se como o mais antipetista dos antipetistas. Combina assim dois ingredientes úteis pela sua valência negativa no atual cenário nacional: a antipolítica e o antipetismo. Com o desgaste dos políticos em geral e do PT (e de Lula) em particular, Doria se posiciona como uma alternativa à direita menos temerária do que Jair Bolsonaro.

Ironicamente, faz o discurso da negação da política aliando-se a Temer, encarnação da prática política mais tradicional por estas terras. Aparentes contradições à parte, a jogada política (ei-la novamente!) é das mais argutas: se o PSDB lhe negar a legenda, Doria pode ser o candidato peemedebista à Presidência em 2018, fazendo com que o discurso antipolítico tenha como veículo a própria quintessência da política brasileira mais convencional, o PMDB.

E não se iluda quem pensa que o prefeito é fenômeno restrito a São Paulo – seu padrinho, Geraldo Alckmin, é bem mais. Em périplo no Nordeste, Doria amealha mais que títulos de cidadão; conquista apoios. Os que lhe atiraram ovos mal se aperceberam que lhe proporcionariam mais uma oportunidade para o discurso eleitoral. Saiu de lá forte como quem toma uma gemada.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS DE SÃO PAULO

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