ANÁLISE: Nada a oferecer

Às vezes, as relações e os pactos políticos podem se basear, sim, em programas e projetos vinculados ao interesse geral. Às vezes, a política consegue fechar compromissos em torno de reformas visando à concertação nacional e é possível superar o paroquialismo e o arrivismo individual. Às vezes. No Brasil, esses momentos parecem raros.

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2017 | 05h00

Há poucos exemplos recentes: a Abertura Política e a Anistia, no regime militar, e o Plano Real são momentos em que se amalgamou a base, isolando os contrários. Mais comumente, porém, a unidade se deu e se dá em torno da popularidade presidencial e da força aglutinadora do Diário Oficial.

Relações entre governo e Congresso dependem do jogo a que o Executivo aceita se submeter ou consegue imprimir como instrumento na negociação com o Legislativo. O governo Temer não inovou. Na surrada dinâmica do “é dando que se recebe”, foi incapaz de construir pelo projeto. O que o governo tem a oferecer?

Não mais se trata de exigir recursos e cargos ou pegar carona na visibilidade de um governo desgastado. A variável mais importante no cálculo parlamentar passou a ser salvar a pele: se salvar da Lava Jato.

A crise política se agrava na proporção da incapacidade de o presidente dar respostas a áudios e delações divulgados. Não adianta desqualificar o mensageiro, cumpre desconstruir a mensagem e parecer capaz de garantir perspectiva de continuidade no poder. Virtude até aqui desconhecida em Temer. Pouco provável que consiga, mas é disto que dependerá a governabilidade.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

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