ANÁLISE: na posse de Lula, um governo sitiado

A cerimônia de posse dos novos ministros do governo Dilma Rousseff - entre eles, o ex-presidente Lula, na Casa Civil - aumentou a impressão de que o governo está sitiado. E de que ninguém está à vontade. Lula permaneceu o tempo todo de cara amarrada, coçando a barba.

João Domingos*, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2016 | 12h41

Do lado de fora do Palácio do Planalto grupos contrário e a favor do governo entraram em choque, a Polícia Militar interveio e as forças de segurança foram obrigadas a bloquear o trânsito na principal via que dá acesso à Praça dos Três Poderes. Deputados e senadores convidados para a posse tiveram de seguir do Congresso ao Planalto a pé (É uma distância curta, de cerca de 200 metros, mas eles costumam ir de um ao outro de carro).

Para azedar mais o clima, um juiz federal de Brasília suspendeu a posse de Lula liminarmente, logo depois da cerimônia.

"Muito bom dia aos brasileiros e brasileiras de coragem que estão aqui dentro", foram as palavras iniciais da presidente Dilma Rousseff ao saudar os que tinham ido à posse. Estava claro que Dilma sabia da confusão do lado de fora do Planalto.

Como a cerimônia de posse foi antecipada, para evitar que alguma ordem de prisão da Justiça Federal de Curitiba alcançasse Lula, os convites para a festa foram feitos às pressas. Só chegaram às mãos dos convidados por volta das 20 horas da quarta-feira, 16, com intervalo de 14 horas da entrega do convite à posse.

A ideia inicial era que Lula tomasse posse sozinho, na semana que vem. A data chegou a ser anunciada pelo presidente do PT, Rui Falcão, para a terça-feira, dia 22.

Logo que pronunciou a frase de saudação, em que falou da coragem dos brasileiros e brasileiras que estavam dentro do Planalto, Dilma foi submetida a um constrangimento. O deputado Major Olímpio (SP), do Solidariedade, gritou: "Vergonha, vergonha". A presidente teve de suspender o discurso e esperar o deputado ser retirado.

Em resposta, as deputadas Luciana Santos (PE), presidente do PC do B, e Jandira Feghalli (RJ), do mesmo partido, cerraram os punhos e puxaram o coro hoje favorito dos governistas: "Não vai ter golpe, não vai ter golpe" e "O povo não é bobo, abaixo a TV Globo".

Aos poucos a presidente Dilma pareceu se animar, passando ao tom do discurso petista do nós contra eles, com o qual o PT tenta criar um clima de ódio de classes e se manter no poder.

O restante do discurso foi utilizado pela presidente para responder às suspeitas de que estaria atrapalhando as investigações da Justiça. Avisou que vai às últimas consequências para descobrir quem autorizou a gravação de sua conversa com Lula, por que o fez e por que o conteúdo do grampo vazou.

A explicação é fácil de ser encontrada. Há um clima de rebelião da Polícia Federal contra o governo, devido ao temor de que com a chegada de Lula e com a mudança do ministro da Justiça as investigações contra autoridades sejam abortadas.

*João Domingos é coordenador do serviço Análise Política, do Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

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