ANÁLISE: Na crise política, o governo comete erro atrás de erro

Só a forte tensão da crise política que pode desembocar no impeachment da presidente Dilma Rousseff é capaz de explicar o clima de barata tonta que tomou conta do governo. Pelo jeito, nem a presença do ex-presidente Lula está servindo para que alguma coisa entre nos eixos por parte dos estrategistas do Planalto e do PT, no momento em que o governo mais precisa dos partidos, principalmente do PMDB.

João Domingos*, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2016 | 05h00

Só uma articulação política sem rumo, mesmo que conte com Lula, pode explicar a retaliação ao vice-presidente Michel Temer, explícita na demissão do presidente da Funasa, Antônio Henrique de Carvalho Pires ontem. Tudo bem que a presidente Dilma, Lula e ministros tenham ficado tiriricas com Temer, que se recusou a adiar a reunião do diretório nacional do PMDB convocada para a próxima terça-feira. Mas dar o troco nessa hora é a pior de todas as iniciativas. Quanto mais o tempo passa, mais os integrantes do governo parecem perdidos e mais se mostram dispostos a recorrer a uma estratégia de defesa estranha, baseada na busca de ajuda de instâncias sabe-se lá quais e em que partes do Universo.

No momento, todos eles estão empenhados em pedir socorro ao mundo, ao qual denunciam o que consideram um golpe em marcha contra a democracia e o Estado de Direito, a exemplo do que foi feito por um funcionário do Itamaraty. Nada do que está sendo feito contraria a Constituição, diz a vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, desde que as regras sejam respeitadas. Isso vale para o processo de impeachment, para as investigações da Operação Lava Jato, para os processos no Supremo. O próprio ministro Dias Toffoli, que foi empregado do PT antes de ir para a suprema Corte, afirma que o processo de impeachment está dentro dos conformes constitucionais.

É claro que a Câmara é presidida por um deputado que está todo enrolado na Justiça. É certo que a hora dele chegará. Mas o fato de Eduardo Cunha ser presidente da Câmara não pode fazer com que o processo de impeachment seja comparado a um golpe, e isso fica claro nos esclarecimentos dos ministros do Supremo. O processo de impeachment foi pedido por três advogados respeitados em todo o País, nenhum deles golpista. A multidão de pessoas que tem ido às ruas pedir a saída da presidente não é constituída de golpistas. Lá estão os desempregados, empresários que perderam tudo ou que estão vivendo os efeitos da crise, e a classe média que sempre votou no PT. E que agora perdeu a paciência.

*João Domingos é coordenador do serviço Análise Política, do Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado

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