ANÁLISE: Mulher emerge como ‘investidora’

As inconsistências da defesa e o truque de terceirizar para alguém que morreu e, assim, não é mais parte do processo não parecem ser um caminho jurídico seguro

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2017 | 00h59

Mais uma vez, Luiz Inácio Lula da Silva não sabia de nada. Antes foram Delúbio Soares, Silvio Pereira, José Dirceu e os “malfeitos” do mensalão. Depois, os “aloprados” do dossiê contra os tucanos em 2006. Agora, o triplex: sua mulher, Marisa Letícia, a despeito de “odiar” praia, visitou o apartamento no Guarujá mais de uma vez, desejava adquiri-lo para “investimento”, mas não conversava com o marido sobre isso, nem sobre a eventual troca de uma cota de unidade simples pelo triplex.

“Eu não sei” foi a frase mais dita por Lula em suas cinco horas de depoimento diante do juiz Sergio Moro. Semblante crispado, nervosismo patente em cacoetes como cofiar o bigode, abrir e fechar compulsivamente as pernas dos óculos de leitura, beber sucessivas garrafas de água, folhear (sem ler) o calhamaço de papel à sua frente e arrumar o nó na gravata, como se o tivesse apertando, eram gestos a indicar um animal político fora de seu hábitat.

Mas embora não tenha conseguido transformar o interrogatório num comício, como fizera em seu primeiro depoimento como réu, em Brasília, Lula teve seus momentos. Ao dizer a Moro que, por ser quem é, só poderia frequentar a praia no Guarujá “às segundas ou na quarta-feira de Cinzas”, ao perguntar ao juiz se não sabia se ele já tinha enfrentado um vendedor de imóveis ou ao pintá-lo como um “jovem” sem paciência com um “velho”, estava lá a raposa dos palanques.

Mas isso pouco ou nada pode ajudar a situação jurídica de Lula. Nesse campo, o que se viu, depois de meses clamando por “provas”, foi o ex-presidente tergiversar. Diante de documento de 2004 de opção de compra do apartamento, apreendido em seu apartamento em São Bernardo, chegou a insinuar que o papel pode ter sido “plantado”. Flagrado em contradição sobre as circunstâncias das visitas ao triplex, de novo recorreu a dona Marisa para deixar sob sua responsabilidade toda a transação do imóvel. As inconsistências da defesa e o truque de terceirizar para alguém que morreu e, assim, não é mais parte do processo não parecem ser um caminho jurídico seguro para alguém que tem um séquito de advogados à disposição e armou um circo político para posar de vítima de perseguição. Diante das câmeras, o Lula bravateiro deu lugar a outro, acuado e hesitante. Entende-se a celeuma em torno do ângulo de filmagem do depoimento.

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