Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Análise: Moro dá roteiro até a questão final: por que o interesse pelo Rio?

Ex-ministro da Justiça conduz investigadores à pergunta que deve ser a última entre todas as que devem ser respondidas pelo presidente

Ivana David*, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 05h00

O depoimento à Polícia Federal do ministro Sérgio Moro é um exemplo de como um magistrado conduz a instrução de um processo. Juízes experientes em lidar com casos complexos, envolvendo organizações criminosas, sabem onde buscar cada uma das provas, ainda mais aquelas digitais. Sabem que é preciso encontrar mensagens, imagens, gravações e todo tipo de rastros telemáticos deixados pelos envolvidos. É dessa forma que a teia será construída. Pouco a pouco. Trata-se de um trabalho com o qual Moro estava habituado, basta olhar para sua atuação na Lava Jato. O juiz circunda a prova; ao fazer uma pergunta, sabe a resposta que procura e, assim, constrói aos poucos o conjunto que lhe permite decidir. Foi assim que Moro deu o fio de Ariadne aos investigadores do caso. E é por meio dele que os investigadores vão sair de seu labirinto. 

Primeiro, o ex-ministro o enfrentou o movimento feito pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, que decidira pedir a abertura de inquérito para verificar a conduta de Bolsonaro assim como a de Moro, sob a suspeita de denunciação caluniosa. Ao dizer que não imputava crime a Jair Bolsonaro, o ex-ministro trouxe o caso para o terreno da ética e da moral, não havendo possibilidade de ter cometido a denunciação. Quem vai ter de dizer isso é o Ministério Público Federal. Normalmente, denunciação caluniosa só se configura no fim de um processo. É preciso primeiro investigar a conduta do presidente para saber se ele foi vítima de uma calúnia. Não foi isso que ocorreu.

Ao relatar fatos e mostrar os meios pelos quais eles podem ser confirmados, Moro pavimenta o caminho da prova. Conduz os investigadores à pergunta que deve ser a última entre todas as que devem ser respondidas pelo presidente: Afinal, por que o seu interesse em apenas uma das 27 superintendências da Polícia Federal, a do Rio de Janeiro? 

Quanto Bolsonaro tiver de enfrentar essa pergunta, toda a prova do caso já terá sido colhida pela Polícia Federal e pelo Supremo. E, quando isso ocorrer, a pergunta de Moro será só o fecho da investigação.

*É DESEMBARGADORA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

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